quinta-feira, julho 23

Flip 2026: relato de policial que capturou o assassino do pai após 25 anos provoca reflexão sobre literatura, justiça e lembranças

A trajetória de Gislayne Silva de Deus, escrivã da Polícia Civil de Roraima, que conseguiu prender o assassino de seu pai 25 anos após o crime, gerou intensos debates sobre justiça e memória na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026. Este relato está presente no livro Voz de Prisão, que foi recentemente lançado pela escritora Luciana de Gnone. Ela foi convidada para participar da programação deste importante evento literário do Brasil através de dois painéis que discutem a intersecção entre memória, justiça e direitos humanos na literatura.

Publicada pela Editora Mapa Lab em maio deste ano, a obra retrata a vida de Gislayne desde o assassinato de seu pai, quando ela tinha apenas 9 anos, até o momento em que deu voz de prisão ao autor do crime, Raimundo Alves Gomes, preso em 2024 após estar foragido desde 2016. Essa história teve ampla repercussão nacional quando o criminoso foi finalmente detido aos 60 anos.

A autora Luciana Gnone se sentiu motivada a investigar mais a fundo os impactos do crime ocorrido em fevereiro de 1999. Para isso, ela contatou Gislayne e viajou até Boa Vista, Roraima, onde passou uma semana realizando um trabalho de campo: visitou os locais relacionados ao crime, conversou com familiares, amigos e policiais envolvidos no caso e teve acesso ao inquérito policial.

Essa imersão possibilitou a Luciana reconstruir com precisão os eventos e transformá-los em uma narrativa ficcional adaptada no livro Voz de Prisão.

A autora compartilhou suas experiências com a construção do livro e o vínculo entre literatura e a busca por justiça. Luciana acredita que frequentemente a literatura consegue acessar aspectos que o processo judicial não consegue alcançar.

“Nos tribunais apuram-se os fatos, enquanto na literatura exploramos as experiências das pessoas afetadas ao longo desse percurso. Por isso gosto de criar narrativas onde a justiça é alcançada. Não porque a ficção possa alterar realidades, mas porque nos permite imaginar outros finais possíveis. Isso preserva uma esperança para aqueles que já perderam a fé na justiça”, observa a autora.

Luciana complementa que sua abordagem ao escrever sobre justiça não se limita à aplicação das leis: “Busco também refletir sobre as consequências da lentidão institucional”.

“É gratificante criar um espaço para reflexão onde o leitor percebe que a dignidade humana vai além do mero número processual”, acrescenta.

<spanSobre Voz de Prisão, Luciana enfatiza que um dos principais aprendizados durante o processo de escrita foi perceber que a família enfrentou duas formas de violência: o assassinato e a morosidade da Justiça.

“Durante os meses dedicados à pesquisa e à construção da narrativa, tive longas conversas com Gislayne, seus parentes, policiais e outras pessoas envolvidas. Analisei o processo judicial e visitei os lugares onde tudo ocorreu. Gradualmente compreendi que essa não era apenas uma história sobre homicídio, mas sobre as cicatrizes deixadas pela espera por justiça”, reflete Luciana.

A confiança depositada pela família de Gislayne foi um aspecto marcante para Luciana durante toda a elaboração do livro. Ela destaca que transformar uma história real em literatura demanda profundo respeito pela memória dos falecidos e também requer liberdade criativa para desenvolver cenas, diálogos e personagens que contribuam para compor a narrativa.

A busca por equilibrar essa liberdade com um compromisso genuíno com a verdade representou seu maior desafio. “Desde o início, meu objetivo foi preservar a essência da jornada dessa família enquanto criava uma história capaz de emocionar e cativar o leitor”, afirma.

Mulheres na literatura policial

Com sete livros anteriores focados em ficção policial protagonizada por mulheres, Luciana menciona que sua intenção sempre foi contar histórias impactantes. Para ela, as mulheres representam uma “fonte inesgotável” dessas narrativas. “O protagonismo feminino surgiu naturalmente porque me atraem figuras femininas complexas, contraditórias e inteligentes que lideram investigações em vez de serem meras participantes”, explica.

“Historicamente, protagonistas masculinos dominaram o gênero policial. Contudo, essa realidade está mudando. Meu foco está em escrever sobre mulheres investigadoras que tomam decisões difíceis enfrentando dilemas éticos e emocionais sem abrir mão da humanidade”, destaca.

Ela ainda ressalta que suas personagens lidam com medos, traumas e inseguranças enquanto continuam avançando. “Essa talvez seja a característica principal que une todas elas”, conclui.

Participação na Flip 2026

A presença de Luciana na Flip 2026 será marcada por dois debates programados para esta quinta-feira (23) e sábado (25). No dia 23 às 14h, ela estará na Caixa de Histórias (Rua Dona Geralda, 140) participando da mesa intitulada “O desejo de justiça”, acompanhada por Maria Fernanda Maglio e Tainá Muhringer sob mediação de Cláudia Lamego. O debate propõe discutir como a literatura pode contribuir para narrativas relacionadas à busca por justiça frente às diversas violências sociais.

No dia 25 às 15h, Luciana participará da mesa “A memória inventa o que permanece”, na Casa LIBRE (Auditório da Praça Aberta – Areal). Junto com Eliseu Banori e Patrícia Farias sob mediação de Maria Teresa Salgado, ela abordará como memórias individuais e coletivas influenciam a criação literária e ajudam na preservação das histórias esquecidas.

Adaptação do livro para o audiovisual

A força narrativa presente em Voz de Prisão também despertou interesse no universo audiovisual. A atriz Carol Castro se sentiu tocada pela história e entrou em contato com Gislayne antes de apresentá-la à produtora Intro Pictures. Atualmente em desenvolvimento, esse projeto contará com Carol como produtora associada além do papel principal enquanto Luciana ficará responsável pela criação do roteiro.

A autora expressa sua expectativa quanto à adaptação: “Espero que Voz de Prisão alcance pessoas que talvez nunca tivessem contato com essa história através da literatura, incutindo reflexões sobre memória, impunidade e as dinâmicas institucionais além da força daqueles que buscam justiça mesmo após profundas feridas”.

“Fico especialmente satisfeita por fazer parte desse processo como criadora e roteirista. Acompanhar desde os primeiros passos da adaptação me permite garantir que ela mantenha a essência da obra respeitando tanto os fatos reais quanto as possibilidades narrativas proporcionadas pelo cinema e plataformas digitais”, finaliza Luciana.