quinta-feira, julho 30

Keiko assume presidência no Peru e anuncia medidas rígidas à frente do governo

Keiko Fujimori, alinhada à direita, assumiu a presidência do Peru nesta terça-feira (28) e revelou que os militares irão reassumir o “controle interno” em áreas com alta criminalidade, uma das primeiras ações de seu governo, inspirado no autoritarismo de seu pai.

Após o juramento, a herdeira do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000) tornou-se a nona líder do país em apenas uma década, em um cenário de grave crise política. Sua vitória no segundo turno sobre o esquerdista Roberto Sánchez foi conquistada por uma margem inferior a 50 mil votos.

“As forças armadas liderarão temporariamente as operações de segurança e o controle interno durante os estados de emergência”, afirmou Fujimori em seu discurso inaugural, enfatizando que esses territórios seriam devolvidos à população.

A insegurança se destaca como a principal preocupação dos cidadãos peruanos, que enfrentam a mais severa crise de segurança desde o conflito armado interno que ocorreu entre 1980 e 2000.

O retorno do fujimorismo ao poder representa um movimento populista que oscila entre o conservadorismo e o liberalismo, gerando divisões entre os peruanos.

Nelly Vega, uma dona de casa de 68 anos, declarou: “Concordo completamente com suas promessas. Ela nos levará a uma situação melhor. Estamos vivendo em um país dominado pelo terror”.

No entanto, muitos peruanos ainda não estão convencidos por Keiko Fujimori, considerando seu partido parte da causa da instabilidade política vivida na última década.

Franklin González, um trabalhador autônomo de 62 anos, expressou sua desconfiança: “Não confio nela, mas o que podemos fazer? O Peru está dividido”, disse ele no centro da capital.

Desde 2016, o Peru já teve oito presidentes em um período marcado pela destituição ou renúncia da maioria deles, com o Congresso desempenhando um papel crucial nesse contexto, onde o fujimorismo é uma força significativa.

Fujimori assume o cargo no lugar do presidente interino José María Balcázar e terá mandato até 2031.

Com sua ascensão ao poder, o Peru se alinha à crescente onda de governos conservadores na América Latina que compartilham afinidades com a administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A cerimônia contou com a presença de líderes como Javier Milei (Argentina), José Antonio Kast (Chile), Rodrigo Paz (Bolívia), Daniel Noboa (Equador) e Yamandú Orsi (Uruguai).

– Mandados de busca e expulsões –

Durante sua campanha eleitoral, Fujimori atraiu apoio ao evocar o legado controverso de seu pai Alberto Fujimori, figura que continua a polarizar a sociedade peruana.

Embora seja reconhecido por derrotar a violenta guerrilha Sendero Luminoso e conter uma hiperinflação desenfreada, Alberto Fujimori também é associado ao fechamento do Congresso com respaldo militar e foi condenado por violações aos direitos humanos. Seu governo terminou envolto em escândalos de corrupção.

César Fuentes, um aposentado de 80 anos, manifestou preocupação: “Vai ser uma repetição do governo do pai”. Ele teme que as táticas implementadas para combater a insegurança resultem em abusos.

A nova presidente propõe realizar mandados de busca em regiões consideradas perigosas e expulsar imigrantes ilegais. Além disso, sugere instaurar tribunais secretos e retirar o Peru da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos.

No contexto atual, os índices de homicídios no país aumentaram significativamente — passando de 1.000 casos em 2018 para 2.600 em 2025 — enquanto as ocorrências de extorsão saltaram de 3.200 para impressionantes 26.500.

O sociólogo David Sulmont alertou que se “o governo não demonstrar rapidamente eficácia no enfrentamento” da insegurança, isso poderá afetar negativamente sua legitimidade e popularidade junto à população.

Diante desse cenário conturbado, Fujimori indicou sua intenção de buscar diálogo com grupos políticos opositores. “Vamos construir pontes para o diálogo”, enfatizou ela.

No Congresso peruano, seu partido detém a maior bancada; contudo, não possui maioria suficiente para aprovar todos os projetos desejados.

– Fenômeno El Niño –

A prevenção contra as consequências do fenômeno El Niño também foi destacada como prioridade imediata durante seu discurso. Este fenômeno climático é caracterizado por chuvas intensas e secas extremas além do aquecimento anômalo das águas oceânicas e promete ser o mais devastador desde 1998.

“Vamos implementar um plano nacional de contingência (…) que romperá com a lógica da reação tardia para adotar medidas preventivas adequadas”, disse Fujimori sobre as obras necessárias para enfrentar essa situação climática desafiadora.

A economia peruana pode ser impactada pelas consequências desse fenômeno climático; considerada uma das mais estáveis na América Latina, qualquer falha do governo em agir “de forma eficiente” na prevenção poderá gerar descontentamento social significativo no país, segundo Arturo Maldonado, cientista político da Pontifícia Universidade Católica do Peru.