sexta-feira, agosto 14

O apocalipse econômico segundo Lula: a aliança entre Flávio Bolsonaro, a Globo e a imprensa liberal

No editorial intitulado “Convocação”, veiculado no jornal O Globo em 2 de abril de 1989, Roberto Marinho fazia um apelo aos líderes do PMDB e PFL — atualmente conhecidos como MDB e União Brasil — para que buscassem uma candidatura consensual. Ele defendia uma alternativa ao que descreveu como um projeto caudilhesco-populista, contrapondo-o a um outro meramente contestatório e sectário, convocando uma mobilização em “defesa dos nossos valores”. Essa declaração era direcionada aos candidatos progressistas da época, Leonel Brizola (PDT) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Referindo-se ao sindicalista que “invadia fábricas”, Marinho criticava a postura da CUT, afirmando que sua “arrogância e empáfia” impediam qualquer possibilidade de entendimento que pudesse resultar em um controle da inflação e na possível elevação dos salários.

Esse artigo deu início a uma parceria duradoura entre a mídia liberal e o projeto neoliberal, representado por figuras da Faria Lima e partidos do Centrão. Nos últimos anos, essa aliança se ampliou ao incluir a ultradireita, empregando táticas de terrorismo econômico contra Lula durante suas sete campanhas eleitorais, enquanto ele busca seu quarto mandato no Palácio do Planalto em 2026.

Quase quarenta anos depois, a tentativa de estabelecer uma “alternativa” mais moderada — agora representada pelo militar Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) — falhou. A mídia liberal ressuscitou a colaboração com o bolsonarismo de 2018, trazendo à tona “especialistas” da era tucana, como Armínio Fraga, Pérsio Arida e José Roberto Mendonça de Barros, reiniciando o terrorismo econômico contra Lula.

Fernando Henrique Cardoso e Roberto Marinho da Globo em 1999 (Patrícia Santos/Folhapress. Digital)

Em um editorial recente publicado no mesmo O Globo, ficou explícito: “A bondade eleitoreira de Lula resulta em má gestão da dívida”, ecoando o discurso da Folha e do Estadão na última quinta-feira (12).

José Luis da Costa Oreiro, economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), analisa essa situação: “O medo que esse grupo tem é que, caso Lula ganhe um eventual quarto mandato — sem possibilidade de reeleição — ele possa alterar a política macroeconômica atualmente sob controle deles”.

Oreiro também menciona a adesão da mídia às medidas impostas por Paulo Guedes, que estavam prestes a serem implementadas no final do governo Jair Bolsonaro. Essas medidas estão sendo retomadas por Daniela Consentino Marques, aliada do ex-ministro com Flávio Bolsonaro.

“Esse pacote estava pronto para ser colocado em prática ao término do governo Bolsonaro. Eles se referem à necessidade de eliminar a ‘expansão autônoma dos gastos do governo’, o que significa cortar indexações que garantem reajustes atrelados ao salário mínimo para aposentadorias e benefícios como o BPC. Essa era a proposta caso Bolsonaro tivesse sido reeleito”, revela Oreiro, que integrou a equipe econômica de Fernando Haddad na transição para o governo Lula em 2022.

O Brasil corre risco de colapso com Lula?

Gustavo Pessoa, doutor em Finanças e professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV), não vê fundamentos para afirmar que a economia brasileira esteja à beira do colapso durante um hipotético quarto mandato de Lula — algo repetido pela propaganda negativa vinculada ao gabinete do ódio de Flávio Bolsonaro (PL) junto com a mídia liberal.

“Atualmente não existem dados que sustentem seriamente que o Brasil está prestes a quebrar. O país registrou um crescimento de 2,3% em 2025, com taxas de desemprego próximo dos menores índices históricos. Possuímos mais de US$ 360 bilhões em reservas internacionais e grande parte da dívida pública está expressa em reais. Isso dista muito do cenário característico de uma economia insolvente”, argumenta Pessoa.

Para ele, o retorno das ameaças econômicas relacionadas ao aumento das candidaturas progressistas nas eleições funciona como uma ferramenta para manter “disciplina política”.

“A mensagem é clara: qualquer governo que busque elevar salários, expandir proteção social ou aumentar impostos sobre os mais ricos será penalizado pelo mercado. Este ‘mercado’ não é uma entidade neutra; é composto por pessoas e instituições com interesses financeiros próprios. Quando alguns agentes clamam por juros altos ou cortes nos gastos sociais, eles não falam sem interesses envolvidos”, ressalta.

Pessoa também aponta as inconsistências na narrativa sobre “corte de gastos” promovida pelos especialistas da mídia liberal e disseminada atualmente pela ultradireita bolsonarista.

“Há um tratamento desigual nas narrativas. Os recursos destinados aos mais pobres são imediatamente rotulados como gastos irresponsáveis ou populismo. Em contrapartida, renúncias fiscais e subsídios para setores influentes aparecem como necessidades técnicas ou custos inevitáveis. Essas narrativas ressurgem nas eleições porque há uma disputa sobre quem arcará com os custos do Estado: os trabalhadores ou aqueles que gozam privilégios tributários?”, questiona.

Oreiro complementa que “não há chance alguma do Brasil quebrar”, comparando essa situação ao ultraliberalismo imposto à Argentina por Javier Milei — admirado pela ultradireita presente na convenção de Flávio Bolsonaro.

“A possibilidade de colapso financeiro é inexistente; nossa dívida está toda denominada em reais — moeda emitida pelo governo. Não lidamos com dólares aqui no Brasil. E se analisarmos a relação entre dívida pública e PIB argentino é consideravelmente pior do que a situação brasileira”, afirma Oreiro sobre os elogios feitos por Armínio Fraga ao governo Milei.

Ricardo Berzoini, ex-ministro das Comunicações nos governos Lula e Dilma Rousseff, aborda diretamente essa questão.

“A mídia comercial sempre teve aversão ao Lula. Ela é sustentada por bancos e instituições financeiras que adotaram desde os anos 90 uma retórica fiscal austera. A mídia promove especulação financeira como forma rápida de enriquecimento e incentiva práticas arriscadas.”

Maura Montella, professora de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora do livro “Era só para envolver o Lula na Zelotes”, aponta ainda como as políticas sociais implantadas por Lula são vistas negativamente pelo patriarcado financeiro da Faria Lima.

“Historicamente o chefe de família era um homem; hoje as mulheres dominam essas famílias. Elas dependem desses programas sociais para garantir educação superior aos filhos. Esses programas formam profissionais essenciais para o país — médicos atendendo necessitados ou engenheiros construindo habitações — mas são frequentemente mal interpretados pelo público hétero-branco-machista-financeiro da Faria Lima”, explica Montella.

Realidade brasileira versus visão do sistema financeiro

Dois dias após o segundo turno das eleições presidenciais em 19 de dezembro de 1989, Roberto Marinho utilizou seu poder midiático — incluindo concessões públicas — para eleger Fernando Collor de Mello. Em seguida, enviou uma carta a Lula negando exercer um poder político preponderante ou pessoal.

Marinho afirmava: “A orientação dada aos veículos sob minha direção tem como único objetivo defender o que considero serem os verdadeiros interesses do país e os caminhos necessários para alcançar o bem-estar popular”. Com isso, além das ameaças econômicas mencionadas anteriormente, expôs uma farsa sobre quem realmente define esses “interesses” reais e quem realmente se beneficia deles. Essa narrativa continua presente nas mentiras disseminadas por Flávio Bolsonaro e seus aliados políticos que buscam oprimir a maioria populacional enquanto transferem riquezas brasileiras em troca de apoio a projetos pessoais egoístas.