quinta-feira, outubro 15

Da intolerância à empatia: lições que o Brasil pode extrair de uma linha direta em Pequim

Em 4 de outubro, os cidadãos brasileiros compareceram às urnas para o primeiro turno das eleições. Aqueles que residem fora do país podem votar apenas para presidente, e na China continental a votação é restrita a três cidades: Beijing, Shanghai e Guangzhou.

Devido à necessidade de viajar longas distâncias para votar, muitos brasileiros que vivem no exterior acabam não comparecendo às urnas. Contudo, essa jornada também proporciona a oportunidade de reencontrar amigos e explorar novos lugares.

A realização das eleições brasileiras coincide com o feriado chinês do Dia da Pátria, que é comemorado em 1° de outubro, data que marca a fundação da República Popular da China.

Para mim, foi um dia de celebração; reencontrei diversos amigos brasileiros e festejei a histórica vitória de Lula aqui na China. O candidato do PT teve uma expressiva vitória em Beijing e Shanghai e, pela primeira vez na história, também conquistou Guangzhou.

Um Brasil dividido

Movido pelo entusiasmo, fui a um bar celebrar com amigos. Notícias sobre as vitórias de Lula chegavam da Nova Zelândia, Austrália, Coreia do Sul e outros locais. As informações indicavam uma vitória tranquila para a esquerda. No entanto, uma amiga portuguesa me alertou: “nunca é fácil derrotar a extrema direita.”

Ela estava certa. Na América Latina, os golpes de Estado sempre foram responsáveis pela derrubada dos regimes democráticos; nunca tivemos algo semelhante à experiência europeia, onde figuras como Hitler, Salazar e Franco ascenderam ao poder por meio do voto popular antes de consolidarem regimes autoritários com apoio legislativo.

No entanto, o que mais me impressionou nos dias seguintes foi o ressurgimento de um discurso violento nas redes sociais — incluindo ameaças de morte, manifestações de racismo e vídeos perturbadores com crianças portando armas.

Paralelamente, análises na mídia indicavam que muitos eleitores de esquerda não foram às urnas por receio de agressões. Isso evidencia como o discurso de ódio disseminado em ambientes digitais tem repercussões no mundo real.

A democracia brasileira enfrenta um grave estado de fragilidade devido à violência política. Mais relevante do que quem sai vitorioso ou derrotado nas urnas é garantir o respeito à liberdade individual e ao direito de cada um expressar suas opiniões.

A essência da democracia — a crença de que nossas decisões coletivas são geralmente as mais acertadas — contrasta com os movimentos que buscam silenciar vozes divergentes. Isso revela claramente as posições ideológicas em disputa atualmente.

A escolha que os brasileiros farão no dia 25 transcende a mera dicotomia entre esquerda e direita; trata-se da defesa de um projeto democrático em oposição a outro autoritário. Também envolve um modelo soberano que acolhe a diversidade em seus múltiplos aspectos versus uma abordagem homogenizadora que busca transformar o Brasil em uma cópia sem nuances dos Estados Unidos.

Reflexões sobre o passado

Uma semana após as eleições, deparei-me com um vídeo perturbador no Facebook. Uma jovem brasileira recriava os sons angustiantes ouvidos durante os porões da ditadura militar no Brasil, como na Casa da Morte em Petrópolis. Os gritos agonizantes de uma mulher sendo torturada se misturavam aos ecos dos golpes violentos, abafados pela canção “Jesus Cristo” interpretada por Roberto Carlos.

Reconheci imediatamente a referência; foi assim que Marcelo Rubens Paiva descreveu a tortura sofrida por seu pai, Rubens Paiva, ex-deputado brasileiro em seu livro Ainda Estou Aqui, que inspirou o filme homônimo premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2025.

No relato autobiográfico do autor sobre sua infância, ele menciona amigos brancos e negros — alguns muito pobres e outros abastados — jogando futebol na praia do Leblon. Crescendo em uma família classe média, ele interagia com meninos da Favela do Pinto nas proximidades.

O Leblon já foi um espaço onde negros alforriados cultivavam camélias — flores originárias da China que se tornaram ícones da luta pela abolição — utilizando seus lucros para libertar outros negros escravizados.

Pós-abolição, a população negra ficou desprovida de trabalho enquanto colonos europeus chegavam em grande número para ocupar esses postos. A elite brasileira tinha a percepção errônea de que apenas trabalhadores brancos eram adequados para empregos formais; os negros eram excluídos dessa narrativa. Com o tempo, as camélias deram lugar à favela.

Dessa forma, conforme narrado no livro mencionado anteriormente, veio a ditadura militar que demoliu a Favela do Pinto e deslocou sua população negra para abrir espaço para empreendimentos imobiliários caros que transformaram o bairro no metro quadrado mais valorizado do Rio de Janeiro.

Esse mesmo padrão — remoção forçada das populações marginalizadas para dar espaço à construção civil voltada aos ricos — se replicou por todo o Brasil, empurrando milhões para as periferias invisíveis aos olhos dos “cidadãos respeitáveis”.

A cegueira causada pelo ódio

Diante da ausência estatal efetiva nas periferias brasileiras, essas áreas passaram a ser dominadas por organizações criminosas e enfrentam explosões de violência. A “gente do bem”, então obrigada a encarar essa realidade periférica, se tornou sedenta por soluções brutais contra a pobreza.

Após visualizar o vídeo da jovem no Facebook, resolvi ler os comentários e fui tomado por choque: muitos eram ainda mais alarmantes do que o conteúdo original do vídeo — desde louvores ao regime militar até afirmações sobre torturas serem justificadas para quem “merecia” sofrer; ameaças diretas à garota e aos esquerdistas também estavam presentes.

Certa internauta sugeriu à jovem que começasse a treinar seus gritos porque logo seria sua vez perante essa crueldade. Outros zombavam ou manifestavam ansiedade para ouvir aqueles sons horríveis ao vivo.

A polarização política no Brasil gerou uma desumanização alarmante; as pessoas passaram a acreditar concretamente que aqueles que têm opiniões diferentes merecem sofrer.

E isso não é novidade alguma; há dez anos atrás quando me mudei para a China assisti debates online entre jovens do MBL questionando se pessoas pobres mereciam viver – normalizando assim uma ideia grotesca onde os privilegiados teriam o direito sobre quem pode ou não existir.

A governança humanizada na China

Poucas horas após assistir ao vídeo perturbador, visitei o serviço 12345 em Beijing — um canal destinado ao atendimento ao cidadão local — buscando entender como funciona a governança urbana nesta metrópole chinesa.

Ao contrário de ser apenas um canal para reclamações isoladas, o 12345 atua como um sistema integrado capaz de identificar problemas recorrentes e coordenar esforços entre diferentes departamentos públicos visando resolver demandas populares sob um princípio fundamental: priorizar as necessidades do povo.

Nessa mesma noite assisti ao documentário Beijing Hotline 2: Resposta Rápida às Demandas Populares, que ilustra casos reais solucionados através desse serviço eficiente. O filme destaca o atendimento humanizado proporcionado quando precisei acessar serviços públicos na China.

Um exemplo impactante é mostrado no documentário: famílias lutando para incluir tratamentos necessários contra doenças raras no sistema público de saúde. As discussões envolvem argumentos racionais fundamentados cientificamente; entretanto, acima das considerações financeiras está sempre presente uma preocupação genuína com o bem-estar humano.

No desfecho desse processo quando tratamentos essenciais são incorporados ao seguro saúde público vemos não apenas alegria das famílias beneficiadas mas também dos funcionários públicos envolvidos nesse acompanhamento cuidadoso durante meses buscando soluções viáveis.

Embora nenhum país seja isento de problemas — incluindo a China — o contraste entre as interações humanas saudáveis observadas aqui e o desejo crescente no Brasil por perseguições políticas me levou às lágrimas. Até quando nossa sociedade continuará se autoinfligindo danos antes de perceber que criar inimigos não resolve nossos desafios?

As limitações do ódio

O ódio pode proporcionar conforto temporário àqueles dominados por ele; contudo não traz melhorias reais na vida das pessoas nem soluciona conflitos existentes. A retórica extremista pode gerar engajamento momentâneo mas falha miseravelmente em promover avanços significativos

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A dinâmica das redes sociais tende a agrupar indivíduos com ideias convergentes facilitando assim disseminação rápida conteúdos agradáveis aos usuários; isso gera uma sensação fugaz de pertencimento mas desencoraja diálogos construtivos entre divergentes.

No passado quando existiam interações sociais mais diversas como conversar com estranhos em bares ou praças públicas todos eram incentivados trocas individuais enriquecedoras experiências mútuas.

A solução verdadeira para desafios reais reside num caminho diferente: aquele pautado pelo diálogo visando construir consensos duradouros entre diferentes perspectivas.
Eu cresci numa comunidade onde opiniões divergentes coexistiam respeitosamente promovendo apoio mútuo entre vizinhos.
Quando iniciou-se polarização no Brasil mudei-me para China encontrando aqui novamente aquele espírito colaborativo tão necessário.

Anseio por um Brasil onde debatemos ideias opostas sem desejar eliminar aqueles com quem discordamos.
Aqueles certos acerca suas convicções deveriam estar dispostos explorar novas opiniões dialogar buscando consenso.
Além das próximas eleições é fundamental que Brasil reaprenda escutar demandas concretas debater resoluções exemplificando atuação proativa como faz 12345 Beijing evitando continuar ouvindo trilhas sonoras abafando gritos dolorosos.

Rafael Henrique Zerbetto