sexta-feira, outubro 23

Futuro do Brasil em jogo: Lula, Jetsons e Mad Max na mesma narrativa

REFLEXÕES DE IARA VIDAL, NO SUBSTACK – Desde sempre, expresso meus sentimentos e minha visão de mundo através das roupas, da cultura pop e de elementos do cotidiano que, à primeira vista, podem parecer insignificantes, mas que frequentemente revelam as contradições da vida com mais clareza do que discursos políticos elaborados. Por isso, dou grande importância às referências que escolho para me vestir; uma camiseta ou um personagem de animação pode refletir muito sobre nosso estado emocional em relação ao mundo.

Quando era criança, sonhava que os anos 2000 seriam como o desenho animado “Os Jetsons”. Expectativas de carros voadores, robôs para auxiliar nas tarefas domésticas e cidades futuristas permeavam minha imaginação. Acreditava que a tecnologia nos liberaria dos trabalhos árduos, permitindo-nos desfrutar mais da vida. Sem dúvida, essa não era uma visão ruim para uma garota que cresceu em frente à televisão.

Esse sonho não se originava apenas dos desenhos animados. Ele também era influenciado pelo Brasil que conhecia—um país emergindo de uma ditadura militar e tentando descobrir como viver em um regime democrático. Havia uma crença, talvez ingênua, de que estávamos nos dirigindo a um futuro melhor. Após anos sob autoritarismo, parecia razoável acreditar que a liberdade e a justiça seriam nossas conquistas.

Cresci acreditando na inevitabilidade do progresso. Para mim, ciência, tecnologia e democracia eram os caminhos naturais para uma sociedade menos desigual. Não imaginava que poderíamos avançar tanto na criação de máquinas inteligentes e ainda assim permanecer tão atrasados nas relações interpessoais.

A esperança se concretizou em 2003 com a posse de Lula como presidente do Brasil. Pela primeira vez na história do país, um homem oriundo da classe trabalhadora assumia a Presidência da República. Aquilo representava mais do que uma simples troca de governo; simbolizava a realização de um sonho que por muito tempo parecia inalcançável.

Nesta época, eu era uma jovem casada com dois filhos pequenos; um deles ainda era um bebê com apenas seis meses. Assistia à cerimônia da posse pela televisão, emocionada enquanto tentava equilibrar aquela enxurrada de emoções com as demandas diárias de cuidar das crianças. A vida real não oferece trégua nem mesmo nos momentos históricos.

É provável que meu filho não recorde daquele dia; no entanto, eu me lembro bem por causa deles.

Anos se passaram trazendo mudanças significativas principalmente para os menos favorecidos. Milhões de brasileiros conquistaram acessos a oportunidades outrora restritas a poucos privilegiados. Em seguida, elegemos Dilma Rousseff como a primeira mulher a ocupar o cargo presidencial no Brasil. A menina sonhadora tinha razões para acreditar que mesmo sem as inovações tecnológicas dos Jetsons, algo positivo estava finalmente acontecendo.

No entanto, a realidade não é um conto animado com episódios organizados e finais felizes garantidos.

O golpe parlamentar contra Dilma trouxe retrocessos e o surgimento do bolsonarismo. Aprendemos da maneira mais dura possível que democracia não é algo seguro após ser conquistado; ela pode ser corroída, atacada ou até aniquilada internamente.

O Brasil que antes me fazia sonhar com um futuro próspero revelou-se capaz de eleger um Congresso repleto de antifeministas, homofóbicos e figuras tão caricatas que nenhum roteirista ousaria criar sem ser acusado de exagero.

Às vezes pondero sobre como nosso sistema político se assemelha a um reality show mal produzido, mas com consequências severas para toda a população. A diferença é que ninguém consegue mudar o canal quando se inicia a votação em projetos que impactam milhões de vidas.

Dessa forma, minha preocupação evoluiu.

Na infância temia que os Jetsons jamais se tornassem realidade; atualmente temo que aquele futuro idealizado esteja se transformando rapidamente em Mad Max.

O mais alarmante é perceber quantas pessoas parecem ter esquecido os quatro anos sob o governo desastroso daquela família no poder. Olho para o Brasil e questiono como conseguimos transformar experiências tão recentes em memórias tão frágeis. Quatro anos são suficientes para fazer uma sociedade esquecer seu passado?

A questão mais relevante talvez seja: o que ocorre com uma nação quando perde a habilidade de aprender com sua própria história?

A Longa Marcha e a perseverança na continuidade

No dia 22 de outubro de 2026, a China celebra os 90 anos da vitória da Longa Marcha, um dos episódios mais significativos da revolução chinesa.

Entre 1934 e 1936, as tropas do Exército Vermelho percorreram milhares de quilômetros enfrentando rios tumultuosos, montanhas nevadas e áreas alagadas, lidando com combates e imensas perdas humanas. A Longa Marcha não foi marcada por vitórias fáceis; foi uma retirada militar repleta de sacrifícios e desafios para manter vivo um movimento revolucionário ameaçado pela extinção.

Um aspecto dessa narrativa me fascina especialmente: a capacidade de continuar avançando mesmo quando tudo parece indicar o fim iminente.

Nesta quinta-feira durante as comemorações em Beijing, Xi Jinping afirmou que somente ao recordar nossa história podemos construir o futuro.

“Somente ao lembrar a história é possível construir o futuro.”
Xi Jinping, presidente da República Popular da China e
secretário-geral do Partido Comunista da China

A frase reverberou em minha mente.

Não porque eu queira equiparar uma eleição brasileira à Longa Marcha do Exército Vermelho—são contextos históricos muito distintos: um lidou com guerra revolucionária na China dos anos 30; o outro envolve disputas políticas decididas pelo voto dentro das estruturas democráticas brasileiras.

No entanto, existe uma reflexão comum sobre a relevância da memória coletiva e da resiliência diante das derrotas ao perseguir objetivos comuns.

A Longa Marcha nos ensina muitas lições valiosas: a história não avança linearmente; às vezes é necessário recuar para reorganizar forças antes de seguir adiante mesmo quando o caminho parece excessivamente longo.

E ao olhar para minha trajetória pessoal percebo quantas vezes tive que reaprender essa lição ao longo dos anos.

A criança sonhadora dos Jetsons cresceu vivendo momentos marcantes na redemocratização brasileira: viu Lula assumir a presidência pela primeira vez, acompanhou Dilma em seu governo e presenciou tanto seu impeachment quanto o advento do bolsonarismo até o retorno de Lula ao poder. Em cada etapa dessa jornada algumas partes daquela ideia inicial sobre o futuro foram sendo reconstruídas ou desafiadas.

Crescer politicamente também implica entender que nenhuma conquista é assegurada indefinidamente.

Uma eleição repleta de memórias

No próximo domingo, 25 de outubro, os brasileiros retornarão às urnas para eleger seu presidente novamente. Lula compete pela reeleição contra Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A disputa ocorre em meio à profunda divisão nacional mas sem ausência de memória coletiva. As lembranças das gestões anteriores ainda estão vivas—os conflitos acerca da democracia atualizam as dificuldades econômicas enfrentadas pelo povo brasileiro assim como as expectativas diversas sobre o papel do Estado no desenvolvimento nacional.

Acompanho todo esse cenário aqui mesmo em Beijing, longe milhares de quilômetros do meu lar enquanto busco entender as implicações dessas decisões no futuro do país onde meus filhos nasceram e ao qual sigo profundamente conectada.

Observar a política brasileira sob esta perspectiva chinesa num momento como este é algo extraordinário; enquanto os cidadãos chineses relembram sua própria jornada histórica fundamental na formação do país deles nós nos preparamos para escrever mais um capítulo na nossa própria trajetória democrática.

Dificilmente consigo não pensar na tenacidade demonstrada por Lula—a figura política que superou várias derrotas eleitorais antes alcançar sucesso presidencial teve sua popularidade elevada durante seu governo anterior enfrentou prisões injustas retornou à arena política e agora aos 80 anos busca novamente ocupar o cargo máximo no país.

Sua trajetória reflete décadas repletas de transformações sociais intensas conflitos acirrados bem como disputas sobre qual direção seguir no Brasil—independentemente das avaliações individuais feitas pelos brasileiros sobre sua carreira política.

Penso nessa jovem mãe diante da tela da televisão em janeiro de 2003 sem saber quantos revezes ainda aguardavam nossa história ou sequer imaginando viver na China acompanhando outra eleição à distância muito menos escrevendo sobre “Os Jetsons”, Mad Max, além da Longa Marcha neste texto único!

Pessoalmente não sei afirmar se isso reflete amadurecimento intelectual ou se simplesmente vivemos tempos tão absurdos onde aspectos culturais populares finalmente merecem diálogo com eventos históricos profundos—provavelmente ambas as coisas se aplicam!

O futuro não chega pronto

Tive muitas reflexões acerca da interrelação entre avanço tecnológico e progresso social enquanto resido neste país onde robôs carros elétricos trens supersônicos parecem ter saltado direto das páginas da ficção científica para nossas vidas cotidianas!

Neste contexto muitos aspectos acerca da China contemporânea aproximam-se bastante dos sonhos infantis inspirados pelos Jetsons comparados ao mundo imaginado tempos atrás!

No entanto viver aqui reforçou-me outra convicção: tecnologia isoladamente não gera sociedades justas! O futuro depende integralmente das escolhas políticas adequadas planejamento consciente prioridades estabelecidas pela sociedade além da habilidade efetiva transformar conhecimento adquirido em melhores condições sociais!

Cabe destacar talvez meu maior erro infantil consistiu em acreditar ingenuamente que simplesmente virar páginas no calendário traria automaticamente melhorias coletivas! Hoje compreendo perfeitamente essa dinâmica complexa!

Uma sociedade pode desenvolver sofisticadíssimos sistemas baseados em inteligência artificial enquanto perpetua preconceitos arcaicos! Pode construir naves exploratórias rumo ao espaço sideral sem garantir dignidade aos cidadãos necessitados nas ruas! Pode investir massivamente em robôs domésticos enquanto apoia políticos oriundos diretamente distopias cinematográficas mal construídas!

Dessa forma continuo recorrendo aos vestuários culturais animações clássicas referências pop como ferramentas ideológicas na análise política cotidiana! Esses elementos ajudam-me organizar perguntas persistentes: Que tipo realístico futuro estamos moldando juntos?

A lembrança constante relacionada à Longa Marcha enriquece essas indagações porque evidencia claramente: O futuro desejado requer muito mais do aquilo já imaginado mas igualmente exige disposição contínua enfrentar todos obstáculos surgirem pelo caminho!

E existem diferenças cruciais entre perseverar ativamente versus repetidamente seguir velhos caminhos pré-estabelecidos! Memória transforma-se genuinamente ferramenta poderosa mudança somente quando reconhecemos erros aprendemos derrotas desenvolvemos novas formas avançarmos juntos!

Talvez seja essa beleza oculta frase Xi Jinping: lembrar nossa própria historia não significa viver aprisionados passado! Significa resgatar lições essenciais capazes auxiliar construção realidades diferentes!

Mantenho firme desejo pelos Jetsons embora confesse seria extremamente útil escapar congestionamentos São Paulo veículos voadores! Anseio alcançar aquela concepção infantil representativa dignidade verdadeira liberdade tempo qualidade muito conhecimento menos desigualdade sonhos sem medo algum!

Nunca desejarei habitar espaço onde escolhas limitadas entre cinismo desespero predominem tampouco tolerar sociedades aceitando desigualdade destino inexorável!

Dentre Jetsons idealizados temor crescente Mad Max reside narrativa ainda sendo escrita presente momento histórico particular vivido coletivamente!

E percebi neste percurso aprendizado profundo: Futuro nunca esteve garantido porém também jamais completamente perdido!