quinta-feira, junho 11

Famílias de desaparecidos aproveitam a Copa para denunciar crise humanitária no México

Com os olhares do mundo voltados para o lendário Estádio Azteca, que recebe a abertura da Copa do Mundo de 2026 através do confronto entre México e África do Sul, um clamor urgente reverbera pelas ruas da capital. Sob a bandeira “Vamos Iluminar a Busca”, grupos de mães e familiares de pessoas desaparecidas, representando ao menos dez estados brasileiros, realizaram protestos significativos nesta quinta-feira (11). A intenção é clara: aproveitar a visibilidade proporcionada pelo maior evento esportivo global para romper o silêncio ao redor de uma tragédia nacional que as autoridades tentam encobrir sob a celebração do futebol.

A diferença na Calzada de Tlalpan, principal via que leva à arena, era impressionante. De um lado, milhares de torcedores animados se dirigiam à cerimônia de abertura; do outro, centenas de familiares exibiam velas, fotos e cartazes impactantes. Em um dos momentos mais marcantes da manifestação, os participantes lançaram “cascaritas” (as tradicionais peladas de rua) na avenida, relembrando à imprensa internacional e aos visitantes estrangeiros que seus entes queridos também eram apaixonados pelo futebol e deveriam estar presentes. Uma das placas mais tocantes exibia a mensagem: “Não joguem com a nossa dor”.

Além do apelo midiático, o movimento desempenha uma função educativa fundamental ao evidenciar a grave crise humanitária que o México enfrenta atualmente. O país apresenta o mais alarmante índice global nessa questão: são mais de 134 mil pessoas oficialmente registradas como desaparecidas, segundo dados do Registro Nacional de Personas Desaparecidas y No Localizadas (RNPDNO).

Para entender as causas profundas dessa crise que abala o tecido social mexicano, especialistas em direitos humanos identificam três elementos centrais:

1 – A dinâmica dos cartéis e a violência associada ao narcotráfico

A crescente estatística de desaparecimentos não é um fenômeno isolado; trata-se de uma engrenagem vital da criminalidade organizada. Os desaparecimentos forçados tornaram-se uma tática aterrorizante utilizada pelos cartéis de drogas para eliminar adversários, esconder homicídios em valas clandestinas e abastecer mercados ilegais por meio do tráfico humano e recrutamento forçado de jovens para atividades criminosas ou trabalho escravo. Regiões que recebem jogos da Copa Mundial, como Jalisco (Guadalajara) e Nuevo León (Monterrey), estão entre as mais afetadas por essa realidade violenta.

2 – A negligência institucional e a impunidade generalizada

A continuidade desse cenário se sustenta na quase total impunidade. Com mais de 95% dos crimes violentos sem resolução, o sistema judiciário mexicano transfere o peso das investigações para a sociedade civil. Grupos de busca, predominantemente compostos por mulheres conhecidas globalmente como “madres buscadoras”, denunciam a falta de ação estatal para agilizar os processos de identificação forense de milhares de corpos encontrados. Diante da inércia oficial, essas mães utilizam pás e picaretas em busca das valas comuns espalhadas pelo país.

3 A geopolítica da imagem e o cerco policial

A tensão política em torno deste grande evento esportivo resultou em um rígido esquema de segurança nas ruas. Para preservar a imagem do país anfitrião diante das redes internacionais de transmissão, a Secretaria de Segurança Cidadã da Cidade do México mobilizou um considerável número de policiais antimotim armados com escudos e barreiras concretas para bloquear o avanço dos manifestantes na Avenida Tlalpan. Essa estratégia impediu que os grupos chegassem perto do Estádio Azteca, criando um bloqueio visual que isolou o protesto da multidão principal.

N mesmo diante das restrições policiais, o impacto político da manifestação foi significativo. Organizações como Anistia Internacional monitoraram os atos, apoiando o manifesto das famílias que expressa o sentimento abrangente de um país ferido nos bastidores da comemoração da FIFA: “Não pode haver Copa enquanto o México sofre com o desaparecimento do seu povo. Nossos filhos não merecem ser esquecidos para que outros possam celebrar”. Enquanto os jogos acontecem nos campos modernos, milhares de lares mexicanos permanecem paralisados no tempo, aguardando uma única resposta essencial: onde estão eles?