Na manhã do dia 9 de junho, a exposição “O Brasil de Portinari” foi inaugurada no prestigiado Museu Nacional da China, em Beijing, em cerimônia que contou com a presença de especialistas e autoridades do Brasil e da China.
Embora Portinari seja um dos mais representativos artistas brasileiros, mundialmente conhecido e reverenciado, esta é a primeira vez que o público chinês têm a chance de conhecer sua obra, o que faz da exposição um dos mais importantes eventos de diplomacia cultural já realizados entre os dois países.
De Brodowski para o Mundo
Filho de imigrantes italianos vindos ao Brasil para traballhar nas lavouras de café, Cândido Portinari nasceu em Brodowski, no interior paulista, em 1903. Sua infância na cidade marcou profundamente sua vida e sua obra.
“Foi precisamente no exterior, sob a luz da Paris dos anos 1920, que ele compreendeu que precisava voltar os olhos para a sua pequena Brodowski para, finalmente, ser capaz de ver o mundo,” afirmou João Cândido Portinari, filho do artista, em seu discurso na abertura da exposição em Pequim.
Tendo crescido em meio à terra vermelha — que os italianos chamavam terra rossa, dando origem ao termo terra roxa — na qual se plantava café, Portinari conheceu desde cedo a exploração dos trabalhadores e a desigualdade social, mas também a felicidade trazida pelos palhaços dos circos itinerantes e por brincaideiras simples, como soltar pipas e jogar futebol.
Essa felicidade está presente na seção inaugural desta exposição, com obras que retratam sua família e suas memórias de infância para revelar uma poética universal que marca a obra do artista.

Eu, também nascido no interior paulista, vi minha própria infância retratada naquelas imagens de crianças brincando em uma gangorra, empinando pipas e jogando futebol em campos improvisados, e dos artistas circenses que faziam nossa alegria quando chegavam à cidade.
Mais tarde foi a vez do amigo José Medeiros, professor da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang, em Hangzhou, me confidenciar que sua infância no Rio Grande do Norte foi parecida, com as mesmas alegrias e brincaideiras, embora geograficamente tão distante.
O Brasil, mesmo com um território tão vasto, logrou alcançar uma base cultural surpreendentemente coesa, na qual a bola e a pipa são elementos da infância de toda criança, sendo esta última uma invenção chinesa que chegou ao Brasil colonial e se popularizou em terras tupiniquins.
“O grande mestre chinês Lu Xun escreveu certa vez: ‘Apenas o que é profundamente característico de uma nação pode verdadeiramente pertencer ao mundo’. É com esse espírito que trazemos hoje a Beijing a poderosa epopeia de Cândido Portinari, que traduz em cores e formas a própria alma do povo brasileiro,” conclui João Cândido.
A família, a pipa, o palhaço e o futebol criaram memórias diferentes em cada um de nós, mas juntas elas formam a colcha de retalhos que as transforma em poesia, permitindo que a experiência humana seja contada através da arte.
O vermelho e o azul
Da pequena Brodowski, Portinari ganhou o mundo. O artista que começou retratando sua família e sua terra natal, acabou retratando também a alma do Brasil ao olhar para as pessoas comuns e descobrir suas dores e alegrias.
“Portinari foi um cronista das dores e da esperança de nosso povo. Transformou a miséria em denúncia, mas preservando a dignidade de seus personagens,” declarou Márcio Tavares, secretário executivo do Ministério da Cultura do Brasil, em seu discurso.
Ao denunciar a desigualdade social, a exploração dos trabalhadores, a luta pela vida e a morte de crianças vítimas da seca e da fome, Portinari não apenas nos apresenta o sofrimento humano de forma crua, mas também celebra a força, a resiliência e a dignidade de seu povo.

“Muitos perguntam como um pintor nascido entre as plantações de café da terra vermelha do interior do Brasil pôde alcançar uma linguagem tão universal. A resposta está em uma verdade estrutural: Portinari não pintava apenas figuras; ele pintava a própria essência da condição humana,” complementa João Cândido.
“Em suas obras, a terra vermelha é a cor de fundo, e os trabalhadores, a espinha dorsal: em suas pinceladas condensam-se a respiração da terra brasileira e o destino do seu povo,” observa Luo Wenli, diretor do Museu Nacional da China.
Já João Cândido explicou que a obra Os Despejados, cheia de sofrimento e miséria, tem um burro azul ao fundo. Ao ser indagado por que havia um burro azul ali, Portinari teria respondido: “Porque a poesia deve existir.”
Membro do Partido Comunista Brasileiro e defensor da justiça social, Portinari via sua arte como um instrumento de transformação, que deve não apenas mostrar os problemas, mas também promover a esperança de que somos capazes de resolvê-los.
Mais que isso, Portinari foi um grande humanista comprometido em promover a paz e a solidariedade entre os povos do mundo: “O compromisso absoluto de meu pai com a humanidade culminou no monumental díptico Guerra e Paz, nas Nações Unidas, um manifesto ético e um clamor pela harmonia entre os povos,” disse João Cândido.
Guerra e Paz
“Os monumentais murais Guerra e Paz, criados para a sede das Nações Unidas, há muito transcenderam fronteiras nacionais, tornando-se uma das mais profundas e sinceras aspirações da humanidade pela paz,” afirmou Luo Wenli em seu discurso.
Constituído por dois grandes painéis, cada um com cerca de 14 metros de altura por 10 de largura, Guerra e Paz foi pintado entre 1952 e 1955. Naquela mesma época, o escritor Jorge Amado, também comunista, fez sua primeira viagem à China.
Comprometido com a denúncia das mazelas sociais e com a luta dos trabalhadores por uma vida digna, Jorge Amado tornou-se conhecido no país e ainda hoje ostenta o título de escritor brasileiro com o maior número de obras traduzidas para o chinês.
Como explicar, então, o contraste entre a popularidade de Jorge Amado e o desconhecimento do público chinês a respeito de Portinari? A resposta está na guerra e na paz.
Nos anos 50, o mundo estava em plena Guerra Fria e a China sofria com sanções internacionais. Naquele contexto, era muito mais fácil traduzir e publicar um livro que trazer uma exposição de arte. Além disso, a literatura militante de Jorge Amado era útil para a consolidação do socialismo recém-instaurado. Ele ajudou a China na guerra.
Portinari, por sua vez, teve que esperar o fim da Guerra Fria para ser apresentado ao público chinês: o estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países e a inserção da China no comércio mundial viabilizaram a logística necessária para uma exposição de arte.

Ainda assim, há uma injustiça histórica a ser reparada. Portinari foi tratado com desconfiança pelos dois lados da Guerra Fria: por ser comunista, foi impedido de ir à inauguração de Guerra e Paz na sede da ONU em Nova York. Ao mesmo tempo, ter sua maior obra instalada nos EUA não era algo bem visto nos países socialistas.
O desenvolvimento que Portinari sonhou para o Brasil
Portinari faleceu em 1962, vítima de intoxicação por metais pesados das tintas que ele mesmo preparava, mas sua obra continua atual, provando que a civilização humana pouco avançou em termos de desenvolvimento humano.
A China é a única exceção: conseguiu erradicar a pobreza extrema, o que significa que o país completou com sucesso a tarefa de garantir a todos os seus cidadãos alimento, vestuário e moradia, além do acesso à educação compulsória e aos serviços médicos básicos.
“O desenvolvimento da China é aquilo que meu pai sonhou para o Brasil”, afirma João Candido ao comentar o desenvolvimento do país asiático nas últimas décadas.
A realidade social denunciada nas telas de Portinari assemelha-se muito à China do passado, como a descrita por Edgar Snow em seu livro Estrela Vermelha Sobre a China, que relata em detalhes a situação da vasta maioria dos chineses nos anos 30. De lá para cá, o país teve um progresso social notável.

Portinari chega à China trazendo retratos da desigualdade a um país que agora busca reduzir suas desigualdades regionais e entre a cidade e o campo, transformando as telas do pintor brasileiro em inspiração para a revitalização rural e a prosperidade comum de todos os chineses.
As 56 obras expostas também refletem o desejo de fraternidade e paz que une os povos do Brasil e da China e os leva a celebrar o Ano Cultural Brasil-China em 2026, bem como o sonho comum de todos os povos, de viver com paz e dignidade.
Por Rafael Henrique Zerbetto
