sexta-feira, junho 12

G7: Cinquenta Anos de Histórias e Desafios em um Cenário de Queda

Seis líderes globais se reuniram em novembro de 1975 no castelo de Rambouillet para enfrentar uma crise que desafiava suas capacidades individuais. O choque do petróleo de 1973 havia provocado um aumento exponencial no preço do barril, o sistema monetário de Bretton Woods desmoronara dois anos antes e a inflação estava corroendo as economias das nações ocidentais. O presidente francês Valéry Giscard d’Estaing convocou os chefes de governo dos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Itália e Japão para um encontro informal, sem sede fixa, tratado ou burocracia permanente. No ano seguinte, o Canadá se juntaria a esse grupo, que ficaria conhecido como G7.

A ideia inicial era clara: promover a coordenação de políticas econômicas entre as principais democracias industrializadas para estabilizar o comércio, as moedas e as taxas de juros. Essa fórmula se mostrou eficaz por várias décadas. Em 1985, o Acordo do Plaza reformulou os mercados cambiais; já na década de 1990, o G7 apoiou iniciativas para aliviar a dívida dos países menos favorecidos e expandiu sua agenda para incluir temas como terrorismo e proliferação nuclear.

Esse foi também um período em que os sete membros tiveram grande influência global. Com o colapso da União Soviética e a China ainda distante da posição atual, o grupo concentrava uma parte significativa da riqueza mundial e tinha um papel preponderante em instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. A inclusão da Rússia em 1997 parecia simbolizar a consolidação de uma ordem internacional sob liderança ocidental. Contudo, essa fase chegou ao fim em 2014, após a anexação da Crimeia.

Cenário Atual

Quase cinquenta anos depois, a situação é bastante diferente. Na recente reunião em Évian-les-Bains, sob a liderança de Emmanuel Macron, os membros do G7 representam pouco mais de 25% da economia global quando medidos pela paridade do poder de compra. Desde 2018, os BRICS superaram essa participação e continuam expandindo sua influência. A disparidade demográfica é ainda mais notável: enquanto os sete países reúnem menos de 10% da população mundial, o bloco emergente representa quase metade da humanidade.

A dinâmica econômica também mudou de lugar. As economias desenvolvidas do G7 enfrentam crescimento lento devido ao envelhecimento populacional e altos níveis de endividamento público. Sua relevância atual se baseia principalmente em renda elevada, produtividade e na força das suas moedas; além disso, seus bancos centrais continuam desempenhando um papel vital no sistema financeiro global.

No entanto, afirmar que o grupo é irrelevante seria exagerado. Em termos nominais, o G7 ainda contribui com uma fração considerável do PIB mundial. Moedas como o dólar, euro, iene e libra permanecem como reservas internacionais fundamentais e referências essenciais para o comércio global. Apesar disso, a influência do grupo se tornou cada vez mais atrelada aos Estados Unidos, cuja economia é superior à soma das demais nações integrantes.

Brasil em busca de diálogo

O Brasil observa essas mudanças a partir de uma perspectiva única. Frequentemente convidado para as cúpulas do G7, nunca foi um membro fixo desse seleto grupo. As participações brasileiras são restritas às sessões externas de engajamento onde os convidados podem contribuir para as discussões sem participar da elaboração dos comunicados finais.

Neste ano, a presença do presidente Lula em Évian assume uma importância adicional. O governo brasileiro busca fortalecer a recente aproximação com Washington após meses marcados por tensões políticas e comerciais. O Planalto está empenhado em transformar essa trégua em um entendimento mais duradouro para evitar novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Simultaneamente, Brasília mantém sua estratégia diplomática tradicional ao buscar manter canais abertos com seu segundo maior parceiro comercial.

Sinais de fragilidade

Os indícios de desgaste do G7 vão além das questões econômicas. A expulsão da Rússia, as divergências sobre os conflitos em Gaza e na Ucrânia, bem como a falta de consenso frente à China e as disputas tarifárias geradas pelo ex-presidente Donald Trump revelam um grupo que gasta cada vez mais energia tentando alcançar consensos internos antes de se apresentar ao restante do mundo.

A comparação com os BRICS é frequentemente feita, mas deve ser tratada com cautela. O bloco emergente abriga países com sistemas políticos diversos, interesses muitas vezes conflitantes e rivalidades significativas entre seus membros principais como China e Índia. Embora seu crescimento econômico tenha aumentado seu peso no cenário internacional, ainda não gerou instituições equiparadas às que foram construídas pelo Ocidente após a Segunda Guerra Mundial.

Desfecho do monopólio

Ainda assim, a expansão dos BRICS foi suficiente para pôr fim ao monopólio de influência exercido pelos sete durante décadas. O mundo multipolar já é uma realidade; no entanto, os contornos dessa nova ordem ainda estão sendo definidos.

O que se vê em Évian representa uma transição entre duas eras distintas. O grupo formado em Rambouillet para lidar com uma crise específica transformou-se cinquenta anos depois em um gestor que lida com sua própria longevidade. A dinâmica da economia global evoluiu; agora há uma distribuição mais equilibrada do poder e nenhum bloco isoladamente consegue mais ditar as regras do jogo.

A imagem mais emblemática da cúpula de 2026 pode ser precisamente esta: um presidente brasileiro atravessando o Atlântico à procura de diálogo com o líder da maior potência mundial — que nem sequer faz parte formalmente do grupo reunido na França.