Paraty, que se firmou como um ícone global em literatura e cultura, acaba de inaugurar um novo espaço que promete mostrar a cidade sob uma nova perspectiva. Durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), é lançada a Casa Paraty, um ambiente dedicado à cultura caiçara, onde se celebra a memória, a literatura, a música, a oralidade, as artes e os modos de vida que moldam a identidade cultural local.
A Casa Paraty vai além de ser apenas um espaço cultural; ela simboliza uma nova proposta. Em um dos períodos mais destacados do calendário cultural da cidade, o local se torna um ponto focal para que as histórias contadas por artistas, mestres, escritores e comunidades locais ganhem destaque.
Com total dedicação à cultura caiçara durante os dias da Flip, a Casa Paraty surge do reconhecimento de que essa cidade não só recebe um dos mais significativos encontros literários do Brasil, mas também é produtora constante de cultura. Antes mesmo da chegada dos turistas e das discussões que caracterizam o evento, existe uma Paraty rica em saberes compartilhados, memórias coletivas e diversas formas de convivência e expressão artística que continuam a florescer diariamente.
Nos últimos 20 anos, a Flip consolidou Paraty como um dos principais centros culturais do Brasil e ampliou sua visibilidade internacionalmente. Assim, a Casa Paraty se insere nesse contexto ao proporcionar uma oportunidade para que a cidade mostre suas referências culturais próprias e as vozes de seus criadores.
Eric Porto, entusiasta do projeto e nativo caiçara de Paraty, destaca que este é um momento de significativa transformação: “Esperamos ampliar a percepção sobre Paraty. A cidade já é admirada mundialmente pela sua beleza e pelo patrimônio histórico associado à Flip. A Casa Paraty busca adicionar uma nova dimensão a essa experiência, conectando os visitantes com as histórias e saberes dos artistas e comunidades locais”, afirma.
No centro do projeto está a cultura caiçara, historicamente desenvolvida na interação entre o mar e as montanhas. Essa cultura abrange oralidade, música, trabalho em conjunto, celebrações e uma rica tradição de transmissão de conhecimentos entre gerações. Através da Casa Paraty, essa cultura é apresentada não como algo fixo no tempo, mas como uma manifestação viva que continua a evoluir e gerar novas linguagens e criações artísticas.
Essa abordagem permeia toda a proposta da Casa. Ao integrar expressões tradicionais com manifestações contemporâneas como rap, slam e performances audiovisuais, o espaço reafirma que tradição não significa ficar ancorado no passado. Pelo contrário: ela se mantém viva quando é compartilhada e reinventada no presente.
Um conceito chave dessa iniciativa é o Defeso Cultural criado pelo artista caiçara Luís Perequê. Inspirado na prática ambiental relacionada à pesca artesanal — quando algumas espécies são protegidas para garantir sua continuidade — este conceito sugere refletir sobre como cuidar dos ciclos culturais locais. Assim como o oceano requer proteção para manter seu equilíbrio natural, os territórios precisam estabelecer condições para preservar suas memórias e expressões culturais diante das mudanças nas cidades contemporâneas.
“Nos últimos anos, temos visto um crescente reconhecimento da cultura caiçara não só em Paraty mas em toda a região. É gratificante perceber que estamos ganhando cada vez mais espaço para afirmar nossa identidade cultural”, comemora Luís Perequê.
A Casa Paraty foi projetada como uma galeria-viva da história local e um ambiente propício para interações culturais. O espaço abriga literatura, música, artes visuais e diversas atividades educativas relacionadas à cultura caiçara. Durante cinco dias de programação gratuita, o público poderá participar de debates sobre diversos temas ligados à cultura local e ao meio ambiente, além de lançamentos literários e apresentações artísticas voltadas para crianças e escolas.
Um ponto alto será o Concurso de Novos Versos da Ciranda Caiçara, aberto aos moradores locais para incentivar novas composições dessa tradição popular. A proposta reafirma que tradição e inovação caminham lado a lado. Além disso, o Palco Zé Kleber homenageia José Kleber Martins Cruz — poeta e músico influente na cena cultural paratiense — celebrando sua contribuição à intersecção entre literatura e música.
A curadora Vanda Mota enfatiza que é crucial incluir a cultura local na Flip: “Como maior evento cultural de Paraty, é essencial que possamos apresentar nossa maturidade cultural ao público”, ressalta.
Outro ponto significativo da Casa é uma exposição fotográfica dedicada à resistência da comunidade caiçara de Trindade contra especulações imobiliárias. Esta mostra traz imagens históricas que narram experiências importantes de luta territorial no litoral brasileiro.
A experiência oferecida pela Casa se desdobra em diversos ambientes: a Biblioteca contém obras de autores locais; a Galeria apresenta produções artísticas regionais; enquanto o espaço Caiçaras e Caipiras promove encontros culturais regados às tradições populares locais. Diversas exposições transformam o casarão em um percurso sensorial repleto das referências materiais da cultura caiçara.
A expectativa é que os visitantes consigam ver além das paisagens turísticas habituais: “Queremos que quem entrar na Casa Paraty sinta não apenas as belezas naturais da cidade mas também sua vibrante vida cultural”, explica Luís Perequê.
A Casa Paraty representa um encontro entre memória histórica e inovação criativa; tradição e modernidade; literatura oralidade; território imaginativo. É um espaço onde Paraty pode ser reconhecida não apenas por receber visitantes mas também por gerar cultura vibrante que preserva sua identidade enquanto compartilha com o mundo.
Siga nossas redes sociais: @casaparatynaflip
