Flávio Bolsonaro (PL-RJ) revelou nesta quinta-feira (16) uma das principais incoerências do bolsonarismo: o uso dos símbolos nacionais em defesa de interesses estrangeiros. Em um vídeo postado em suas redes sociais, ele tenta culpar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela tarifa de 25% que os Estados Unidos impuseram sobre produtos brasileiros. Essa manifestação virtual, no entanto, acontece simultaneamente ao esforço de sua defesa no Supremo Tribunal Federal (STF) para adiar seu depoimento à Polícia Federal em um inquérito relacionado a calúnias contra Lula.
O conteúdo divulgado revela uma teatralidade subserviente. No vídeo, Flávio aparece em destaque, utilizando a bandeira do Brasil como um artifício visual para desviar a atenção do fato de que está atuando como um porta-voz de sanções internacionais contra seu próprio país. “A culpa é sua, Lula”, afirma o senador, aliviando a responsabilidade soberana do governo de Donald Trump pela retaliação comercial.
O porta-voz de Washington e a omissão dos fatos
No conteúdo do vídeo, Flávio abandona qualquer mediação política e reproduz, sem questionamentos, a narrativa de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA e aliado próximo da família Bolsonaro. Ao mencionar Rubio como uma fonte considerada “neutra”, que supostamente comprovaria a falta de “boa-fé” do governo brasileiro, ele ignora a aliança ideológica que sustenta essa crítica e tenta apagar da memória pública sua recente visita de lobby em Washington.
Antes do aumento tarifário, o parlamentar viajou para participar de uma audiência no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). Nessa ocasião, em vez de defender os interesses comerciais do Brasil, ele criticou a política externa de Lula e as relações bilaterais entre Brasil e China. Fornecer argumentos para uma potência estrangeira enquanto culpa adversários internos pelas consequências é uma tática que ultrapassa os limites da oposição e flerta com ações prejudiciais à economia nacional.
A transparência desmantela a narrativa de Flávio
A alegação de que o governo federal “não negociou” é prontamente refutada por meio da comparação de dados públicos e documentos oficiais. Uma nota técnica emitida pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) revela que houve pelo menos cinco reuniões de alto nível com o USTR desde maio. A sobretaxa americana se baseou em retaliações às políticas internas brasileiras e ignorou os fundamentos comerciais, afetando iniciativas como o Pix e regulações ambientais.
A tentativa de distorcer os fatos já enfrenta resistência na opinião pública. Uma pesquisa Genial/Quaest divulgada na mesma quinta-feira indica que 51% dos eleitores acreditam que Flávio apoiou intencionalmente a tarifa para prejudicar o governo petista. Para 63% da população brasileira, essa medida estrangeira representa uma ameaça direta aos empregos e à renda familiar. O levantamento evidencia que os eleitores reconhecem o alinhamento de Flávio aos interesses americanos como um ataque à classe trabalhadora brasileira, causando desgaste até mesmo entre seus apoiadores.
Bélico nas redes sociais, evasivo na Polícia Federal
Enquanto mantém um tom agressivo nas redes sociais ao acusar o governo federal de “corrupção” e “incompetência”, o senador demonstra evasão ao lidar com as autoridades brasileiras. Sua recusa em definir uma data para prestar esclarecimentos à Polícia Federal expõe o modus operandi típico do bolsonarismo diante da investigação legal: o adiamento constante.
O inquérito, sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, investiga declarações onde Flávio erroneamente associou Lula a fraudes no INSS. O Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, já classificou esse depoimento como “de especial relevância”.
A discrepância entre seu discurso público e suas ações é evidente e revela muito sobre seu caráter político. Sob as luzes brilhantes dos estúdios digitais, Flávio Bolsonaro agita a bandeira nacional para justificar sanções externas ao Brasil. Quando confrontado com intimações da Polícia Federal para responder criminalmente por suas declarações enganosas, opta por solicitar mais tempo. O “avião sem piloto”, metáfora usada pelo senador para criticar o governo atual, parece descrever com precisão a estratégia confusa defendida por sua própria equipe legal.
