quinta-feira, julho 16

Skaf da Fiesp atribui aumento nas tarifas a Lula e critica puxadinho de Tarcísio

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), sob a presidência de Paulo Skaf, atribuiu ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva a responsabilidade pela nova sobretaxa de 25% proposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. O comunicado foi disponibilizado nesta quinta-feira (16), às 9h03, no site da entidade.

No documento, a Fiesp admite que a ação dos EUA foi tomada de forma unilateral e que isso compromete a competitividade da indústria nacional. Entretanto, logo em seguida, a entidade desloca a culpa para o Palácio do Planalto, argumentando que a política externa adotada por Lula teria gerado essa retaliação comercial.

De acordo com a federação, “comunicações diplomáticas desnecessárias”, “críticas pessoais”, “discussões eleitorais” e um “desalinhamento político com Washington” teriam prejudicado mais de dois séculos de relações entre o Brasil e os Estados Unidos.

“A retaliação comercial poderia ter sido evitada se houvesse uma abordagem técnica e pragmática, como buscou a Fiesp durante audiências públicas realizadas nos EUA e em outras ocasiões no último ano”, ressaltou a nota oficial da Fiesp.

Skaf descreveu essa nova cobrança como um “pedágio” imposto às exportações brasileiras. Ele também mencionou a elevada carga tributária e os altos juros reais no Brasil, mas não fez críticas semelhantes ao governo norte-americano por sua decisão sobre a sobretaxa.

Fiesp ignora cinco reuniões do governo Lula com os EUA

A crítica à falta de uma abordagem “técnica e pragmática” contrasta com informações fornecidas pelo governo federal. Em 14 de julho, um dia antes do anúncio feito pelos EUA que gerou repercussão na Fiesp, representantes brasileiros participaram da quinta reunião de alto nível com Jamieson Greer, representante de Comércio dos Estados Unidos.

Conforme informado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, esses encontros tiveram início em 7 de maio após acordo entre Lula e o presidente americano para criar um grupo de trabalho focado no diálogo comercial.

No encontro ocorrido em 14 de julho, membros do MDIC, do Ministério das Relações Exteriores e da assessoria especial da Presidência reafirmaram para Jamieson Greer que a sobretaxa proposta contra o Brasil era injusta.

O comunicado oficial destaca que a delegação brasileira contestou tanto a sobretaxa de 25% resultante da investigação da Seção 301 quanto outra tarifa de 12,5% relacionada ao trabalho forçado, aplicável a outras 59 economias.

“As alegações apresentadas na Seção 301 não justificam as tarifas sugeridas”, declarou o MDIC. A pasta ainda acrescentou que, seguindo instruções de Lula, o governo manteve sua defesa por um acordo bilateral “equilibrado”.

A Fiesp não menciona as cinco reuniões em seu comunicado. Essa omissão permite à entidade apresentar a retaliação como uma consequência direta das declarações do governo brasileiro sem considerar as negociações realizadas com Washington desde maio.

Paulo Skaf é membro do mesmo partido que Tarcísio

A postura da Fiesp se dá sob a liderança de um empresário vinculado ao grupo político do governador paulista Tarcísio de Freitas. Paulo Skaf se filiou ao Republicanos em abril de 2022 e chegou a ser cogitado para ocupar o cargo de vice na chapa liderada por Tarcísio nas eleições estaduais.

Ele retomou a presidência da Fiesp em 1º de janeiro de 2026 após ser eleito em agosto do ano anterior com 99% dos votos válidos para um mandato até 31 de dezembro de 2029.

Em junho passado, reportagens mostraram que Skaf já pressionava o governo Lula para uma reação contra as tarifas impostas por Donald Trump. A cobertura também destacou sua colaboração com Flávio Bolsonaro na defesa da manutenção da carga horária semanal 6×1.

A nota emitida nesta quinta-feira fortalece essa linha. Embora reconheça os danos causados pela decisão unilateral dos Estados Unidos, a Fiesp concentra suas críticas no governo brasileiro.

Fiesp funcionou como escritório informal do governo Bolsonaro

A utilização política da Fiesp sob Skaf não começou com Tarcísio. Em fevereiro de 2020, informações indicavam que a sede da entidade na avenida Paulista servia como um escritório informal do governo Jair Bolsonaro em São Paulo.

Conforme relatado na época, ministros e membros do governo federal utilizavam as instalações da federação para reuniões na capital paulista. Skaf atuava como intermediário entre o Palácio do Planalto e empresários locais.

Esse alinhamento era explícito. Em janeiro de 2020, ao responder críticas sobre sua aproximação com o governo Bolsonaro, Skaf declarou que apoiava o presidente devido à agenda econômica liderada pelo então ministro Paulo Guedes.

“Somos a Fiesp; não somos fascistas; somos Bolsonaro”, afirmou Skaf conforme reportagens daquele período.

A aproximação gerou descontentamento dentro da própria federação. Críticas surgiram em janeiro daquele ano por parte de empresários insatisfeitos com o que consideravam um “conluio” entre Skaf e Bolsonaro.

Dentre os críticos estavam Horácio Lafer Piva, ex-presidente da entidade, e Pedro Passos. Eles questionaram o comprometimento da principal representação industrial paulista com as agendas política e econômica do governo Bolsonaro.

Fiesp apoiou projeto militar durante governo Bolsonaro

A relação entre Fiesp e o governo também se estendeu à patrocínio de projetos oficiais. Em janeiro de 2020, reportagens indicaram que a federeção patrocinaria um colégio militar idealizado por Bolsonaro em São Paulo, estimando-se que o valor seria aproximadamente R$ 60 milhões.

No final daquele ano, Skaf apresentou ao governo federal o projeto desse novo colégio militar como uma contribuição vinda da estrutura ligada à Fiesp para uma das principais bandeiras políticas defendidas por Bolsonaro.

Esse histórico ajuda a explicar o posicionamento atual da entidade. A Fiesp afirma estar defendendo os interesses industriais brasileiros enquanto transforma uma decisão comercial dos Estados Unidos em um instrumento para criticar Lula, ignorando as negociações estabelecidas pelo governo e evitando críticas diretas ao ex-presidente Trump.

A contradição é evidente na própria nota: enquanto classifica a sobretaxa como uma ação unilateral direcionada especificamente ao Brasil, sustenta que apenas o governo brasileiro seria responsável pela retaliação.