Juliana Dal Piva se tornou o alvo de uma campanha misógina orquestrada por Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e outros apoiadores bolsonaristas após a publicação de uma imagem que mostra Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao lado de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. Em vez de abordar a apuração realizada, os aliados do senador optaram por proferir insultos sexistas e tentar desmerecer a carreira da jornalista.
Eduardo e Figueiredo usaram a expressão “Juliana das Picas” para referir-se à Dal Piva, um termo que rapidamente foi replicado por seguidores nas redes sociais. As postagens também fomentaram alegações infundadas de fraude e militância, além de tentativas de desacreditar a repórter, mesmo com a reportagem apresentando claramente os métodos utilizados para validar a fotografia.
Durante sua participação no ICL Notícias, Dal Piva respondeu aos ataques e reafirmou a veracidade da investigação, detalhando como obteve o material e as análises realizadas para detectar possíveis sinais de manipulação digital ou montagem.
https://www.instagram.com/reel/Da1LKhthNLR/
A crítica de Eduardo Bolsonaro se transforma em ataque pessoal contra Juliana Dal Piva
Em uma postagem, Eduardo Bolsonaro compartilhou uma montagem onde Luiz Phillipi Mourão foi substituído pelo cantor Elvis Presley. Ele acusou o ICL de veicular a reportagem “sem qualquer verificação” e disparou o apelido misógino contra Dal Piva.
“Soltam uma matéria dessas sem nem verificar. Qual o compromisso com a verdade de uma Juliana das Picas, ICL, PCCept?”
Tal publicação desviou o foco da discussão sobre a fotografia para atacar diretamente a jornalista responsável pela sua divulgação. A expressão criada pelo ex-deputado foi repetida por perfis bolsonaristas que marcaram Dal Piva nas postagens e começaram a questionar sua credibilidade.
https://x.com/BolsonaroSP/status/2077447976411140461
Esse padrão já havia sido observado em outros momentos envolvendo membros da família Bolsonaro: um influenciador ou figura pública dispara um ataque específico contra um profissional de imprensa e seus seguidores amplificam essa agressão. Situação semelhante foi relatada recentemente quando Flávio Bolsonaro atacou a jornalista Eliane Cantanhêde.
Paulo Figueiredo ataca até mesmo a profissão da jornalista
Paulo Figueiredo também se juntou à ofensiva, repetindo o termo utilizado por Eduardo e afirmando que Dal Piva não era jornalista e que o ICL não possui legitimidade como veículo de comunicação.
“Não que Juliana das Picas seja jornalista ou ICL seja um veículo legítimo.”
Ele levantou questionamentos sobre a origem da imagem, o sigilo da fonte e criticou a falta do arquivo original com metadados. No entanto, esses questionamentos foram acompanhados por ofensas sexualizadas dirigidas à autora do texto.
https://x.com/pfigueiredo08/status/2077445334905819515
A ofensiva ocorre poucos dias após Figueiredo ter atacado novamente profissionais da mídia. Em 3 de julho, foi demonstrado como ele expôs uma repórter da Folha de S.Paulo em suas redes sociais.
Ataques bolsonaristas visam desmerecer as investigações
Pós-publicações feitas por Eduardo e Figueiredo, apoiadores do bolsonarismo começaram a replicar o apelido misógino, criando montagens e acusando Dal Piva de ter publicado uma imagem falsa.
Os ataques misturaram críticas sobre a imagem com ofensas direcionadas ao nome, aparência e competência profissional da jornalista. Isso resultou em uma maior exposição da repórter, fazendo com que seu nome ficasse associado ao insulto nas discussões acerca da reportagem.
A natureza das postagens indica que as reações foram além do desejo de exigir novos elementos na apuração; muitos usuários focaram em transformar a jornalista no centro das controvérsias ao invés dos procedimentos envolvidos na verificação da imagem.
Juliana Dal Piva explica as verificações feitas na fotografia
A repórter apresentou detalhes sobre seu processo de checagem. Segundo informações do ICL Notícias, em colaboração com o Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística, a fotografia foi obtida através de uma fonte anônima e teria sido capturada em 2022 em um hotel na zona sul do Rio de Janeiro.
A imagem passou por cinco ferramentas para detecção de conteúdo gerado por inteligência artificial: Gemini, Hive Moderation, Sightengine, Was It AI e Image Whisperer. O ICL afirmou que nenhuma delas indicou sinais de geração artificial.
Uma análise adicional utilizando InVID também não encontrou evidências de manipulação. Além disso, foram examinados fatores como sombras, reflexos nos óculos e fontes luminosas presentes na cena dos dois homens; todos esses elementos mostraram coerência entre si conforme registrado pela publicação.
Cabe ressaltar que essas verificações não substituem o arquivo original com metadados mas demonstram que houve análises rigorosas antes da divulgação da imagem. Esse aspecto foi frequentemente ignorado nas postagens que acusavam Dal Piva de agir sem checar os fatos adequadamente.
A polêmica originada pela foto de Flávio Bolsonaro
A fotografia captura Flávio Bolsonaro e Luiz Phillipi Mourão sem camisas em um ambiente relaxado. Mourão é visto fazendo um gesto com as mãos que remete à forma como se representa uma arma—um símbolo adotado há anos pela família Bolsonaro e seus apoiadores.
A imagem do senador com o “Sicário” foi divulgada pela Fórum após ser revelada por Dal Piva. Este registro levantou questões sobre as circunstâncias em torno do encontro entre Flávio e alguém mencionado nas investigações relacionadas ao Banco Master.
Flávio Bolsonaro negou conhecer Mourão e afirmou que tira fotos com pessoas cujos nomes não consegue identificar devido à sua condição pública. Sua assessoria também expressou inicialmente dúvidas sobre se a imagem era autêntica ou fruto de manipulação digital.
“Flávio Bolsonaro reafirma que não conhece nem nunca viu a pessoa na foto. É irresponsável tentar atribuir qualquer significado pessoal a uma imagem aleatória.”
A mera existência dessa foto não comprova qualquer tipo de relação pessoal entre eles. A reportagem ressalta que Flávio estava ao lado de Mourão enquanto apresenta as verificações realizadas sobre essa imagem específica.
No decorrer deste caso, o senador também forneceu explicações relacionadas à fotografia com o “Sicário”, conforme reportado pela Fórum.
Quem é Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão?
Mourão foi identificado pela Polícia Federal como membro de um grupo vinculado ao banqueiro Daniel Vorcaro. De acordo com as investigações, esse grupo estava envolvido em atividades como monitoramento adversário, obtenção clandestina de informações sigilosas e ações intimidatórias.
Diversas mensagens apreendidas pela PF revelaram discussões acerca das ameaças direcionadas aos opositores de Vorcaro; dentre os citados estava o jornalista Lauro Jardim do O Globo. O ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal classificou essas práticas investigadas como “práticas mafiosas”.
A Fórum ofereceu detalhes sobre quem era Mourão e qual papel lhe foi atribuído pela Polícia Federal nesse contexto específico ligado ao banqueiro Vorcaro.
Dificuldades enfrentadas por Juliana Dal Piva ligadas ao clã Bolsonaro
A tentativa de desacreditar Dal Piva não surgiu apenas em decorrência da foto. A jornalista tem acompanhado há anos os desdobramentos políticos e patrimoniais da família Bolsonaro e já publicou diversas investigações sobre seus integrantes e associados próximos.
Ela é autora do livro “O Negócio do Jair: a história proibida do clã Bolsonaro”, finalista do Prêmio Jabuti 2023, além de fazer parte da diretoria da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).
Diante desse cenário adverso, Dal Piva já enfrentou ações judiciais relacionadas ao seu trabalho investigativo. Em um desses casos, ela foi processada pelo advogado Frederick Wassef por causa da divulgação pública de mensagens relevantes; no entanto, venceu esse processo por decisão unânime no Tribunal de Justiça paulista.
Flávio Bolsonaro também tentou censurar reportagens escritas por ela em parceria com Thiago Herdy; contudo essa tentativa foi rejeitada pela Justiça brasileira.
A misoginia coloca Juliana no centro dos ataques
A sequência dessas publicações transformou a discussão acerca da interação entre Flávio Bolsonaro e Mourão em uma campanha contra quem revelou os fatos. As ofensas sexualizadas somadas à negação das credenciais profissionais dela contribuíram para disseminar acusações infundadas sobre fraude associadas à fotografia divulgada.
Tais ataques fazem parte de um histórico mais amplo envolvendo agressões semelhantes perpetradas pelo bolsonarismo contra mulheres jornalistas. A Fórum compilou casos anteriores onde Jair Bolsonaro fez comentários machistas direcionados tanto às jornalistas quanto às parlamentares.
No contexto específico envolvendo Dal Piva, os insultos não apresentaram provas concretas que sustentassem alegações sobre fabricação da imagem. A resposta observada nas redes combina interrogações quanto à apuração com ofensas pessoais destinadas à deslegitimar uma profissional cuja investigação sobre os membros da família Bolsonaro perdura há anos.
Mantendo sua posição firme quanto à defesa da reportagem apresentada, Juliana Dal Piva respondeu detalhando os procedimentos adotados durante as checagens feitas na fotografia enquanto Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e seus seguidores tornavam-se cada vez mais focados na figura dela como alvo principal das críticas relacionadas à imagem divulgada.
