quinta-feira, outubro 15

Abolição da jornada 6 x 1 gera inquietação na Casa-Grande

A abolição da escala 6×1 representa a quarta conquista significativa da classe trabalhadora. A primeira vitória foi o término da escravidão, que está mais relacionada a um resgate humanitário do que a questões laborais. A segunda, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), implementada em 1943, sofreu severas críticas durante o governo golpista de Michel Temer entre 2016 e 2018. A terceira conquista foi a introdução do 13º salário, estabelecido em 1962 pelo presidente João Goulart. Atualmente, tanto o 13º quanto a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que extingue a escala 6 x 1 enfrentam ameaças caso Flávio Bolsonaro vença nas próximas eleições.

O projeto defendido por ele e pelos representantes da extrema-direita e dos poderosos da Faria Lima visa instaurar um sistema opressivo, que poderia ser definido como “hora trabalhada, hora paga”. Nesse novo modelo, não haveria salário mínimo, tampouco 13º ou qualquer direito trabalhista, tudo sob o pretexto enganoso de que os trabalhadores poderiam negociar livremente com seus empregadores. É uma ilusão semelhante à de um incauto que acredita poder negociar com uma fera ao entrar em sua jaula.

Nem mesmo Davi, conforme narrado na Bíblia, conseguiu dialogar com o gigante Golias; sua resposta foi imediata: uma pedrada certeira na testa do adversário. Não havia espaço para negociação.

A luta contra a escala 6 x 1 teve início com Rick Azevedo, um auxiliar de farmácia no Rio de Janeiro, que lançou a iniciativa VAT – Vida Além do Trabalho – reivindicando dois dias de descanso para que os trabalhadores pudessem passar mais tempo com suas famílias. Com o apoio da deputada Erika Hilton, o projeto chegou ao Congresso e despertou o interesse do presidente Lula, resultando em uma mobilização popular que culminou na aprovação da proposta. Flávio Bolsonaro não teve coragem de se opor publicamente à medida, assim como o General Hamilton Mourão.

As reações da elite econômica foram previsíveis e semelhantes às ocorridas em outras conquistas trabalhistas ao longo da história. No momento da abolição da escravidão, os proprietários de terras alegaram dificuldades financeiras para manter suas propriedades. Enquanto muitos ex-escravizados foram dispensados sem compensação alguma, os fazendeiros receberam indenizações do governo. Ao contrário dos Estados Unidos, onde cada homem livre recebeu uma mula e 40 acres após a abolição; essa é inclusive a origem do nome de uma produtora famosa do cineasta Spike Lee: “40 acres e uma mula”.

No dia 26 de abril de 1962, O Globo estampou em sua capa: “Considerado Desastroso Para o País um 13º Mês de Salário”. Essa avaliação negativa provavelmente provinha das opiniões dos patrões e não refletia as perspectivas dos trabalhadores. Contudo, apesar das críticas iniciais e da falta de redes sociais para mobilização instantânea, houve grande agitação popular e a lei do 13º salário foi sancionada em 13 de julho daquele ano – precisamente quando o Brasil conquistava seu segundo título mundial no futebol. Hoje em dia, tanto o futuro do 13º como o desempenho do futebol nacional estão ameaçados.

Embora os canais digitais ainda não existissem na época, é possível imaginar as reações dos poderosos diante daquela situação; basta observar as discussões atuais sobre a votação referente à escala 6 x 1. Os argumentos são sempre os mesmos: haverá dificuldade na manutenção dos empregos. Em 2018, um ex-presidente atualmente preso afirmava que era necessário escolher entre ter direitos ou empregos e defender que era preciso proteger os empresários para garantir investimentos.

Após as reformas promovidas por Michel Temer que desmantelaram a CLT, foi prometida uma geração massiva de empregos; no entanto, tal promessa se revelou pura desinformação. Os patrões aproveitaram-se dessa liberdade fiscal para aumentar seus lucros.

As reações nas redes sociais são alarmantes; algumas expressões são particularmente desumanas: “Para quê o pobre precisa descansar mais? As mulheres deveriam trabalhar como faxineiras em vez de ficarem com os filhos”. Essa mentalidade questiona basicamente o direito ao descanso para quem vive em condições difíceis. E se perguntam sobre como essas pessoas utilizariam seu dia livre? Isso não é problema deles – podem assistir TV, pescar ou até ajudar os filhos nos estudos; quem sabe até fazer faxina para complementar a renda familiar.

Outros comentários sugerem que os patrões demitiriam e depois recontratariam funcionários por salários inferiores; ironicamente, esses são os mesmos que defendem a “livre negociação”.

Assim segue essa narrativa. Acostumados à exploração contínua e ao lucro exorbitante, muitos sentem-se ofendidos diante dessa derrota inesperada. Eles acreditam ser os proprietários deste país e não aceitam contrariedades.

No entanto, às vezes eles podem ser contrariados quando as marés da História mudam. Queixarem-se não tem sentido; não há razão válida para tais reclamações. Continuarão ricos e à frente de suas empresas exploradoras.