A Polícia Federal (PF) conseguiu acessar documentos e mensagens de texto no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que indicam que a liderança do portal Metrópoles revisava matérias sobre o setor financeiro e o Banco Master antes de serem publicadas. As trocas de mensagens revelam que Vorcaro não só propunha pautas de seu interesse, mas também editava partes dos textos, pedia a exclusão de informações indesejadas e definia a linha editorial de reportagens delicadas.
Essa relação entre o empresário e o veículo jornalístico se solidificou em 2024, quando o Banco Master estabeleceu um contrato publicitário com o portal no valor total de R$ 20 milhões. Com esse acordo, foi criado um canal direto entre Vorcaro e Lilian Tahan, CEO do grupo Metrópoles. A investigação da PF revelou que ao menos 14 matérias foram previamente enviadas ao ex-banqueiro para sua análise e aprovação. Dentre elas, pelo menos 11 passaram por modificações significativas, incluindo cortes ou reescritas completas conforme as instruções do proprietário da instituição financeira, além de duas reportagens publicadas a pedido claro de Vorcaro.
Contrato milionário e controle editorial
A interação entre o banco e o portal resultou em uma conexão direta entre Vorcaro e Luiz Estevão, ex-senador e fundador do Metrópoles, que cumpre pena de 31 anos por desvio de verbas públicas e foi liberado para regime aberto em 2021 após parte da pena cumprida.
Logo após os primeiros contatos em maio de 2024, os pagamentos começaram a fluir para as contas do portal. Em junho daquele ano, o Banco Master realizou um pagamento inicial de R$ 1 milhão. No mês seguinte, julho, foi acordada uma transferência adicional de R$ 900 mil destinada ao financiamento de projetos relacionados à “educação financeira” com empresas ligadas ao conglomerado Master, como a seguradora Kovr e o banco digital Will.
O montante significativo do contrato levantou dúvidas dentro da própria equipe do banqueiro. Registros indicam que a assessora Ana Matos comentou com Vorcaro: “Tá caro esse Metrópoles”. A resposta do ex-banqueiro demonstrou a importância estratégica que ele atribuía ao portal:
“A coisa mais importante da nossa vida é esse Metrópoles.”
Dois dias depois, Vorcaro informou sua equipe: “Dei ok pra Lilian”. Na sequência, Ana Matos questionou se os R$ 20 milhões seriam pagos integralmente pelo CNPJ do banco ou compartilhados com as empresas Kovr e Will. Em 2025, o valor total foi quitado pelo Master em parcelas mensais de R$ 5 milhões, enquanto isso Vorcaro começou a intervir ativamente nas escolhas editoriais.
Modificações sob demanda: cortes e inserções
As intervenções nas matérias eram diretas e frequentes. Em 2 de abril de 2025, enquanto o Master passava por sérias dificuldades financeiras, Vorcaro expressou descontentamento com uma notícia publicada sobre uma suposta oferta para compra dos ativos do banco por R$ 1. “Proposta de 1 real nunca existiu!”, reclamou ele. A resposta da CEO do portal foi rápida: “Tiramos”.
Essa informação surgiu em meio ao anúncio feito dias antes pelo Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do DF, sobre sua intenção de adquirir 58% das ações do Master. Essa operação estava sob forte crítica pública e dependia da aprovação do Banco Central (BC).
Em 9 de abril, a direção do portal informou Vorcaro sobre o recebimento de um documento confidencial e combinou enviar uma cópia física a ele. No dia seguinte, sugeriu uma pauta: “Me diga o que acha: um comparativo entre os balanços dos bancos. Isso ajuda ou atrapalha?”. Vorcaro achou a ideia interessante, mas fez uma exigência: “Eu conseguiria dar uma olhada antes pra checar os dados”. A proposta foi prontamente aceita com um “Claro!”, e o texto foi publicado no mesmo dia após passar pela revisão dele.
Esse padrão continuou em maio durante uma reportagem sobre a venda dos ativos do banco para o BTG Pactual. Ao receber a minuta antes da publicação, Vorcaro solicitou: “Pode retirar Hapvida do texto?”
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. O pedido foi atendido sem hesitação. A influência de Vorcaro no portal aumentou quando Renato Gomes, diretor do Banco Central responsável pela análise da compra do Master pelo BRB, adotou uma postura crítica em relação à transação. Isso levou eventualmente à rejeição da operação pelo BC e à liquidação extrajudicial do Master. Em agosto de 2025, a equipe do Metrópoles encaminhou a Vorcaro uma entrevista com Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC que mencionava Gomes. O ex-banqueiro fez questão de orientar: “Acho que o texto tá ótimo. Mas eu não falaria tanto do Renato; concentraria essa matéria no Roberto. Senão perdemos o suspense da batida dele! Guardaria essa parte sobre o Renato pra matéria dele!. A sugestão foi prontamente acatada. Alguns dias depois, ao analisar um rascunho intitulado “<empTécnico ou político? Quem é Renato Gomes?, Vorcaro pediu alterações específicas: “<empEu retiraria a parte sobre falência do banco.. Ele também recomendou adicionar que haveria “<empum racha no Bacen e Renato estaria contra., além das “<empespeculações sobre ele estar pronto para deixar seu cargo após seu mandato.. Todas as sugestões foram seguidas pelas equipes editoriais. A direção respondeu afirmativamente: “<empVamos publicar isso então?.
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. No dia seguinte, diante da redação sobre um projeto que permitiria ao Congresso demitir diretores do BC, o banqueiro opinou: “<empTiraria a última frase.. O pedido foi rapidamente atendido. As interferências não se limitaram apenas ao conteúdo econômico; também atingiram as pautas políticas. Ainda em agosto de 2025, incomodado por críticas feitas por Ricardo Cappelli — pré-candidato oposicionista ao governo local — que alertava sobre os riscos da compra do Master pelo BRB, Vorcaro pediu diretamente para conter as críticas: <emp“Esse Cappelli você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!” .
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. A direção respondeu prontamente: “<empDeixa comigo.” .
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. Essa submissão à vontade do ex-banqueiro persistiu até sua prisão. No dia 17 de novembro de 2025 — quando Daniel Vorcaro foi detido pela Polícia Federal — a cúpula do portal enviou-lhe uma mensagem final via WhatsApp contendo minutas sobre a venda do Master para empresa Fictor antes da publicação oficial. Após realizar as mudanças solicitadas por ele, Lilian Tahan enviou: “<empPublicada hahahaha.” .
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. Em resposta às perguntas sobre a antecipação das matérias enviadas para aprovação por Vorcaro , Lilian Tahan declarou que “checar com fontes se as informações refletem corretamente os contextos apresentados é uma prática comum na minha atuação com figuras empresariais , políticas e jurídicas .”; A executiva também afirmou que o contrato publicitário no valor total de R$20 milhões não influenciava na cobertura editorial , sublinhando como evidência várias reportagens que expõem situações adversas enfrentadas por empresas vinculadas ao banqueiro , como Banco Master , Ambipar , Fictor e Oncoclínicas . Quanto à pauta relacionada a Renato Gomes , ela destacou que este ganhou relevância devido à sua oposição à transação com BRB , assunto relevante para Brasília . Sobre Ricardo Cappelli , Tahan afirmou que Luiz Estevão sempre criticou firmemente a aquisição do banco pelo BRB e que forneceu análises técnicas ao pré-candidato apontando falhas nos balanços públicos . Apesar desses esclarecimentos , as mensagens recuperadas pela Polícia Federal evidenciam claramente como ocorreu um controle extenso sobre as publicações feitas pelo portal , comprometendo assim sua autonomia editorial em prol dos interesses financeiros privados . A pressão sobre o Banco Central e manipulação na cobertura política
<strongP</strongosicionamento institucional
