No exato momento em que Flávio Bolsonaro busca se estabelecer como o sucessor político de seu pai na disputa pela presidência, a estrutura financeira da família, responsável por criar a máquina digital do bolsonarismo, enfrenta um problema com a Receita Federal.
A empresa Bolsonaro Digital Ltda, que é composta pelos sócios Jair, Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, além de Rogéria Nantes, mãe dos três políticos, foi considerada inapta pelo Fisco a partir de 1º de junho de 2026. Essa decisão está documentada no Ato Declaratório Executivo nº 036219421 e impacta diretamente as operações financeiras da família na esfera online.
CNPJ da empresa do clã Bolsonaro indica sua condição formal de “Inapta” perante a Receita Federal.
A razão para essa penalização é clara: a empresa deixou de prestar contas ao governo. Segundo a legislação vigente, um CNPJ pode ser classificado como inativo quando há omissão de declarações obrigatórias por mais de 90 dias. Em termos práticos, isso significa que a empresa não informou à Receita sobre seus ganhos no Simples Nacional, ocultando assim a entrada de dinheiro em seus registros financeiros.
As consequências legais dessa sanção são diretas. Além da suspensão do CNPJ, o ato também declarou inidôneos os documentos emitidos pela Bolsonaro Digital. De acordo com a legislação tributária, isso implica que notas fiscais e recibos gerados pela empresa não têm mais validade fiscal para terceiros. Assim, qualquer contratante da firma não poderá utilizar essas notas para justificar despesas regulares ou compensar impostos, tornando a empresa um passivo contábil para seus clientes.
Ato Declaratório da Receita Federal que impôs sanções à empresa e invalidou seus documentos fiscais para uso por terceiros.
O relatório do Coaf
A falta de transparência contábil revela um histórico complicado da Bolsonaro Digital. Criada em abril de 2017 com um capital social inicial de R$ 1 mil e localizada em um apartamento em Vila Isabel (RJ), a empresa tinha como objetivo declarado por Flávio Bolsonaro o monetizar os vídeos da família no YouTube.
No entanto, essa alegação de operação em pequena escala foi desafiada em 2023. Um relatório do Coaf, enviado à CPMI do 8 de Janeiro, apontou um “faturamento presumido” de R$ 460 mil apenas no mês de maio daquele ano.
<pNa ocasião, Flávio Bolsonaro refutou esses valores, afirmando que a receita da companhia não ultrapassava R$ 3 mil mensais e descrevendo o documento do órgão como sendo “politizado”. A defesa de Jair Bolsonaro corroborou essa versão ao afirmar que, apesar dos irmãos compartilharem igualmente os 24,9% das ações da empresa, somente Flávio utilizava o negócio.
No entanto, a recente punição imposta pela Receita Federal reacende questionamentos: se a firma faturava apenas R$ 3 mil mensalmente e operava regularmente, por que então os membros da família Bolsonaro deixaram de declarar o faturamento ao Fisco durante mais de três meses?
Omissões no TSE
A prática de ocultar informações sobre a Bolsonaro Digital dos órgãos reguladores é uma estratégia recorrente na família. Em 2018, Flávio Bolsonaro não mencionou a empresa em sua declaração oficial ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante sua candidatura ao Senado, apesar dela constar nos registros oficiais da Receita Federal e da Junta Comercial do RJ.
Nas eleições de 2022, Eduardo Bolsonaro repetiu essa omissão ao deixar a firma fora de sua prestação de contas. Apenas Jair Bolsonaro incluiu sua participação na empresa declarando os 24,9% correspondentes ao valor simbólico de R$ 249.
A situação agora se agrava com as omissões frente ao Fisco. Ao buscar reforçar sua presença digital com nomes como Nikolas Ferreira e Gustavo Gayer para sua nova “tropa digital”, Flávio Bolsonaro tenta mostrar força na internet. Entretanto, nos bastidores financeiros, a empresa criada para explorar lucrativamente a militância virtual enfrenta problemas com a Receita Federal devido à falta de transparência nas suas receitas.
