sexta-feira, julho 3

Trump usa PCC como justificativa para reafirmar influência dos EUA na América Latina

No dia 1º de julho, o governo dos Estados Unidos revelou a imposição de sanções direcionadas a dois cidadãos brasileiros, três empresas localizadas em São Paulo e uma companhia portuguesa, todos suspeitos de estarem envolvidos em um esquema de lavagem de dinheiro associado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Ao anunciar essas medidas, o Departamento do Tesouro dos EUA descreveu a facção como “a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental”. Essa declaração não apenas reflete uma abordagem policial, mas também se integra à nova estratégia de segurança delineada por Donald Trump, que inclui ações militares diretas e reafirma a Doutrina Monroe com o intuito de reverter a América Latina em uma extensão da influência americana.

Sanções dos EUA e caracterização do PCC como ‘maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental’

No comunicado emitido pelo Departamento do Tesouro, a mensagem é clara: “Atualmente, o PCC é considerado a maior organização criminosa transnacional no Hemisfério Ocidental. Nos últimos anos, suas atividades se expandiram globalmente, com forte presença no Reino Unido, Turquia e Japão. Dentro dos EUA, essa facção representa uma ameaça criminal significativa e crescente.” As sanções foram implementadas pelo Ofac (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros), que opera sob o Tesouro americano, fundamentadas em duas ordens executivas: a 14059, focada na luta contra a proliferação de drogas, e a 13224, que autoriza sanções a organizações consideradas terroristas e seus apoiadores.

Essas novas sanções marcam a primeira ação desse tipo desde maio, quando o PCC e o Comando Vermelho (CV) foram oficialmente designados como organizações terroristas pelos EUA. O padrão dessas medidas demonstra um processo deliberado: classificar as entidades, nomear indivíduos e então sancioná-los. A utilização da expressão “Hemisfério Ocidental” no comunicado não é por acaso; ela ressoa com a nova “Estratégia Nacional de Defesa dos EUA”, lançada em janeiro pelo Departamento de Guerra, que visa garantir a dominância militar e comercial americana “do Ártico à América do Sul”.

Os alvos das sanções: Victor Shimada e Stella Stefanie

Os principais alvos das sanções são Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. De acordo com o Tesouro americano, Shimada atuava como “conector crucial entre membros do PCC na Flórida e traficantes internacionais”, sendo acusado de lavar mais de US$ 30 milhões (aproximadamente R$ 156 milhões) em fundos ilícitos oriundos de várias cidades americanas, utilizando criptomoedas para repatriar os valores ao Brasil. Ele é sócio da Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda., além da Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda., registrada em Portugal, ambas incluídas nas sanções. Outras duas empresas paulistas, a Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda. e a Wave Construções Inteligentes Ltda., também foram afetadas pelas novas medidas.

No Brasil, as atividades de Shimada estão sob investigação por sua suposta participação em operações relacionadas ao caso VaideBet, que investiga desvios no contrato de patrocínio entre o Corinthians e uma casa de apostas, conforme denúncia aceita pela Justiça. Um relatório da Polícia Civil paulista vincula sua empresa a uma rede financeira que liga-a à Wave Intermediações e à UJ Football Talent. Esta última foi mencionada na delação premiada de Antonio Vinicius Lopes Gritzbach como supostamente relacionada a Danilo Lima de Oliveira, conhecido como “Tripa”, apontado como membro do PCC. Embora não seja explicitamente acusado de ser parte da facção nas investigações brasileiras, Shimada está inserido em um fluxo financeiro interligado com indivíduos e empresas citadas nas apurações sobre o grupo. Um escritório jurídico que representava Shimada no Brasil declarou ter renunciado todos os processos relacionados ao seu caso após ser contatado pela imprensa.

Stella Stefanie é identificada como parente próxima e colaboradora dele. O Tesouro americano afirma que ela atuava como secretária dele e ajudava na retirada de grandes quantias em dinheiro para apoiar as operações ilegais. Até o momento, não há registros criminais ou processos abertos contra ela. A reportagem não conseguiu identificar representação legal para Stella ou para as empresas sancionadas.

A estratégia militar americana para as Américas e o conceito de ‘narcoterrorismo’

A comunicação do Tesouro dos EUA não é apenas informativa; possui um caráter doutrinário significativo. A nova “Estratégia Nacional de Defesa dos EUA”, divulgada pelo Departamento de Guerra em janeiro deste ano, estipula que Washington buscará “paz mediante força” enquanto reafirma a Doutrina Monroe como base orientadora para sua política na região. O documento deixa claro que os EUA reservam-se o direito de realizar intervenções militares diretas contra organizações narcoterroristas dentro das Américas e planejam auxiliar aliados na capacidade para desmantelar cartéis latino-americanos. Durante o anúncio dessa estratégia, o Departamento fez referência à operação que resultou na captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, acusado por liderar o Cartel de los Soles.

A proposta militar contida na estratégia baseia-se em três pilares: expandir as operações da Guarda Costeira e da Marinha para controlar rotas marítimas essenciais no combate ao tráfico; intensificar vigilância nas fronteiras enquanto se intensifica o combate aos cartéis usando força letal; além disso, estabelecer ou ampliar acesso a regiões estratégicas dentro da área. Em dezembro passado, já havia indícios desse direcionamento quando a Casa Branca anunciou sua nova Estratégia de Política Externa priorizando ações voltadas à América Latina para combater “ameaças urgentes” à segurança nacional americana. O cerne desses objetivos inclui combater a influência chinesa na região bem como controlar fluxos migratórios ilegais sob o conceito mais amplo do “narcoterrorismo”.

Brasil: um dilema entre cooperação e soberania diante das pressões americanas

A designação do PCC como “maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental” junto às sanções impostas contra brasileiros posiciona o Brasil no centro da agenda norte-americana relativa à segurança regional. Isso gera uma pressão tangível sobre Brasília: colaborar com Washington no desmantelamento das redes financeiras ligadas ao crime organizado internacional ou enfrentar possíveis consequências diplomáticas por ser considerado um território permissivo. Contudo, essa cooperação é acompanhada por uma agenda mais ampla que envolve reafirmação da Doutrina Monroe, combate à influência chinesa na região e prerrogativas americanas para agir militarmente onde considerem necessário.

Neste cenário complexo, a retórica associada ao “narcoterrorismo” serve como um instrumento multifuncional. Justifica não apenas sanções financeiras mas também possibilita pressões sobre políticas externas brasileiras, acordos militares ou alinhamentos aos interesses estratégicos americanos. Para o Brasil emerge um risco real: essa lógica compulsória pode comprometer sua autonomia nas decisões externas diante da linguagem bélica utilizada contra crimes transnacionais. As sanções anunciadas no dia 1º de julho constituem atualmente uma ação direcionada contra indivíduos e empresas específicas; entretanto, revelam um contexto estratégico muito mais amplo.