sexta-feira, outubro 23

Documentário desvenda a história de autor perseguido por 144 ações judiciais de líderes evangélicos

Após sua estreia no Festival do Rio, onde foi laureado com o Prêmio da Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira (ACIE), o documentário “144 – Apocalipse Não”, que é escrito, dirigido e estrelado por João Paulo Cuenca, chega à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

No dia 24 de outubro, o artista também dará início à sua exposição individual “144 – Fim é o nome do que vem antes do começo”, na galeria NND|AZECO em São Paulo. A mostra contará com cerca de 70 obras inéditas que têm como inspiração os mesmos eventos abordados no filme.

A origem da obra remonta a uma postagem satírica feita em 2020 no Twitter (atualmente conhecido como X), criticando Jair Bolsonaro e a liderança da Igreja Universal do Reino de Deus. Essa ação resultou em uma série de retaliações: Cuenca enfrentou uma ofensiva judicial coordenada, somando 144 processos por danos morais movidos por pastores, além de receber inúmeras ameaças de morte.

Ao expressar suas ideias, Cuenca utilizou uma figura de linguagem impactante: afirmou que “o brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”, adaptando um conceito do filósofo Jean Meslier, que afirmou que “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”.

Essa declaração serviu como um catalisador em um contexto já delicado de crise política e sanitária. Diante das restrições legais e do labirinto jurídico, Cuenca decidiu percorrer mais de 10 mil quilômetros pelas diversas regiões do Brasil em busca de diálogo e compreensão.

Em vez de se concentrar exclusivamente nos litígios, o documentário segue o cineasta em uma jornada por templos evangélicos, cultos em residências, procissões, festas populares, comunidades ribeirinhas ao longo do Rio São Francisco e até em eventos como rodeios e clubes de tiro nas áreas fronteiriças do agronegócio.

O filme apresenta uma diversidade de personagens: desde fiéis que compartilham poesias e relatos sobre milagres até pescadores cujas vidas foram afetadas pela degradação ambiental e a invasão do mar em suas residências.

Simultaneamente, a produção registra a tentativa de Cuenca de dialogar com os autores das ações judiciais em suas cidades natais. Essa busca se transforma em uma reflexão pessoal sobre o significado da fé nos tempos atuais.

Walter Salles descreveu o documentário como “uma obra bem estruturada e incisiva”, ressaltando sua relevância para compreender melhor o Brasil contemporâneo. Ele destacou a habilidade de Cuenca em se conectar com aqueles que possuem visões diferentes da sua, explorando uma prática religiosa mais plural do que a retratada em outros documentários recentes sobre o tema. Salles elogiou essa abordagem como rara nos dias atuais, tornando o filme ainda mais cativante.

Exibições na 50ª Mostra Internacional de Cinema de SP

Sessão 1: 24 de outubro, às 21h40*
Local: Espaço Petrobras de Cinema – Sala 1;
Endereço: Rua Augusta, 1475 – Consolação;
*A sessão contará com as presenças de João Paulo Cuenca e Luís Urbano.

Sessão 2: 27 de outubro, às 19h30
Local: Cinesystem Belas Artes Frei Caneca – Sala 3;
Endereço: Rua Frei Caneca, 569 – Consolação.

A Exposição: “144 – Fim é o nome do que vem antes do começo”

Em conjunto com as exibições cinematográficas, o público terá a oportunidade de visitar a exposição “144 – Fim é o nome do que vem antes do começo”, na galeria NND|AZECO São Paulo.

Com curadoria assinada por Victor Gorgulho e texto crítico elaborado pelo artista Cipriano, a mostra apresenta os símbolos criados por Cuenca durante sua vivência no processo judicial.

A abertura oficial está marcada para sábado, 24 de outubro, às 16h, coincidentemente no mesmo dia da primeira exibição do filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

A exposição permanecerá aberta até 20 de fevereiro de 2027, podendo ser visitada às quartas e sextas-feiras das 10h às 17h e aos sábados das 10h às 15h. O endereço é Praça da Bandeira, nº 53, Centro de São Paulo. A entrada é gratuita.

Ficha técnica do documentário

Título: “144 – Apocalipse Não”;
Direção e roteiro: João Paulo Cuenca;
Empresas produtoras: Bartleby e O Som e a Fúria;
Produtora associada: Duas Mariola;
Produção: Luís Urbano, Sandro Aguilar, João Paulo Cuenca e Felipe M. Bragança;
Produção executiva: Luís Urbano;
Supervisor de produção: Felipe M. Bragança;
Fotografia: Guilherme Tostes;
Montagem: Bruna Carvalho e Marta Lopes;
Som direto e design sonoro: Thiago Sobral e Roland Vajs;
Trilha sonora original: Barulhista;
Colorista: Paulo Américo;
Gênero: Documentário;
Países envolvidos: Brasil e Portugal;
Duração total: 87 minutos.

Quem é João Paulo Cuenca

João Paulo Cuenca é um escritor e cineasta reconhecido por suas obras literárias traduzidas para oito idiomas. Ele é ganhador do Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional. Sua estreia na direção ocorreu com “A Morte de J.P. Cuenca”, projeto desenvolvido no Biennale College durante o Festival de Veneza. Este filme foi exibido no Festival do Rio, na MostraSP e também participou dos festivais CPH:DOX, BAFICI, New Horizons, Festival du Nouveau Cinéma, entre outros. “144 – Apocalipse Não” marca seu segundo longa-metragem e representa a primeira produção da Bartleby, produtora criada por ele em 2017.