quinta-feira, julho 30

Ricardo Nunes atropela mais um relevante plano cultural na cidade de São Paulo

Na manhã desta quarta-feira (29), teve início a demolição do Grêmio Recreativo Cruz da Esperança, um dos mais antigos e tradicionais espaços de convivência da comunidade da Casa Verde, localizada na Zona Norte de São Paulo. O local foi cercado por agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) que monitoraram o cumprimento de uma ordem judicial de reintegração de posse.

Com esse ato, chega ao fim uma trajetória de 68 anos do grêmio, encerrando também um longo conflito legal entre a associação e a Prefeitura de São Paulo sobre a ocupação do espaço.

O terreno em questão pertence à União e foi administrado pelo Comando da Aeronáutica durante várias décadas devido à sua proximidade com o Aeroporto Campo de Marte. Segundo relatos históricos, no final da década de 1950, o espaço começou a ser utilizado para práticas esportivas, como o futebol de várzea, após um acordo informal entre moradores, taxistas e a Aeronáutica.

Em 2022, o município recebeu a área como parte de um acordo que visava quitar uma dívida da União com a Prefeitura relacionada a terrenos na região do Campo de Marte. Após isso, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) destinou o local à iniciativa privada para o desenvolvimento do futuro Parque Municipal Campo de Marte. A administração do espaço foi transferida para o Consórcio Campo de Marte, cuja liderança está nas mãos da empresa Progen.

Críticas da comunidade ao despejo

A decisão sobre a desocupação foi objeto de contestação por parte dos membros do Cruz da Esperança, que lutavam pela permanência do local. Fundado em 1958, o grêmio é considerado um importante ponto para a preservação da cultura afro-brasileira e negra na cidade, além de ser palco de diversas atividades culturais e esportivas, como rodas de samba, capoeira e eventos ligados ao candomblé.

Nos últimos meses, houve mobilizações por parte de moradores, artistas e figuras políticas em oposição à demolição. O presidente da associação, Antonio de Jesus Marques, conhecido como Toninho, expressou gratidão pelo apoio recebido nas redes sociais, mas manifestou tristeza pela falta de resultados nas tentativas de reverter a decisão municipal.

Na noite anterior ao início das obras, terça-feira (28), ocorreu uma última edição gratuita do Samba do Cruz, que atraiu centenas de participantes em um ato simbólico de despedida. O evento contou com a presença da vereadora Luna Zarattini (PT-SP).

A justificativa da Prefeitura

Em comunicado oficial, a Prefeitura de São Paulo defendeu que a reintegração de posse é resultado de uma decisão judicial e afirmou que manteve diálogo com todas as entidades que utilizavam o espaço.

A administração municipal alegou que somente o Cruz da Esperança não aceitou as propostas para desocupação voluntária e não atendeu às notificações solicitando a vacância do terreno.

Além disso, mencionou que as edições do Samba do Cruz eram realizadas sem autorização adequada, citando problemas como cobrança irregular pela entrada e venda clandestina de bebidas alcoólicas em área pública.

A Prefeitura ainda destacou que a concessionária responsável pelo futuro parque formalizou um acordo com a Associação dos Clubes Mantenedores da Área de Esportes e Lazer para garantir gestão compartilhada dos campos destinados ao futebol de várzea que serão criados no novo complexo.

Cenário recente das demolições

A demolição do Cruz da Esperança ocorre pouco tempo após o desmantelamento do Aliança da Casa Verde, um clube tradicional voltado ao futebol feminino e frequentado pela população LGBT+, também situado no complexo esportivo do Campo de Marte.

Entidades culturais afirmam que essa ação é parte de um padrão mais amplo das intervenções promovidas pela Prefeitura em equipamentos culturais na cidade. Em março deste ano, por exemplo, ocorreu a demolição do Teatro de Contêiner, localizado no centro paulista, após outra disputa judicial sobre sua ocupação pela Companhia Mugunzá de Teatro.

Com o fechamento do Cruz da Esperança, um dos mais emblemáticos espaços dedicados ao samba e à cultura popular na Zona Norte se despede. Enquanto isso, a Prefeitura avança com os planos para implementar o novo Parque Municipal Campo de Marte.