quinta-feira, agosto 20

Tarcísio responde a Flávio Bolsonaro e reafirma apoio às urnas eletrônicas

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), criticou veementemente as declarações feitas por Flávio Bolsonaro (PL), que é seu aliado e se apresenta como candidato à presidência do Brasil, a respeito das urnas eletrônicas.

Em uma reunião com diplomatas, Flávio Bolsonaro reiterou os comentários de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, levantando dúvidas sobre a integridade das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro em geral.

“[Confio nas urnas] foram elas que me elegeram. (…) É necessário discutir o país. Precisamos dialogar sobre os rumos que estamos tomando. É importante colocar isso em pauta. Da nossa parte, percebo o esforço da equipe do Flávio em criar um plano para apresentar propostas”, afirmou Tarcísio de Freitas.

A fala de Tarcísio ocorreu durante uma sabatina promovida pela CBN.

Flávio Bolsonaro adota estratégia do pai ao disseminar desinformação sobre urnas a embaixadores

No evento “Debatendo o Brasil”, realizado em Brasília nesta terça-feira (21) com representantes diplomáticos de 42 nações, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) propagou informações incorretas sobre as urnas eletrônicas do Brasil, tentando associá-las à empresa venezuelana Smartmatic. No decorrer de seu discurso, ele solicitou aos países presentes que enviassem “o maior número possível de observadores” para as eleições de outubro, mencionando documentos da CIA que alegam fraudes eleitorais na Venezuela. Essa abordagem reflete a mesma tática utilizada por seu pai, Jair Bolsonaro, que foi declarado inelegível pelo TSE após fazer declarações semelhantes em um encontro com embaixadores em 2022.

A reunião contou com a participação de membros do corpo diplomático de países como Estados Unidos, Israel, Reino Unido, África do Sul, Austrália, Alemanha e Paraguai. Foi neste contexto que Flávio Bolsonaro decidiu citar documentos da CIA divulgados pela administração Trump na semana anterior, que levantavam suspeitas sobre o processo eleitoral na Venezuela, estabelecendo uma ligação infundada com o sistema eleitoral brasileiro.

“Recentemente houve uma denúncia do governo americano sobre suspeitas de fraudes em processos eleitorais eletrônicos, especialmente na Venezuela”, declarou o senador. Logo depois, ele afirmou que “muitas dessas máquinas utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem da empresa venezuelana”, referindo-se à Smartmatic, mencionada no documento da CIA como supostamente envolvida na manipulação dos votos nas eleições da Venezuela em 2010 e 2012.

A partir dessa falsa premissa, Flávio fez um apelo central aos representantes estrangeiros: “Não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas gostaria que todos os países enviassem o maior número possível de observadores para nossas eleições e também pessoas com conhecimento sobre essa tecnologia para garantir eleições mais seguras e transparentes no Brasil.”

Desinformação e respostas do TSE

A afirmação feita por Flávio Bolsonaro carece de respaldo factual. O TSE já desmentiu publicamente qualquer ligação entre a Smartmatic e as urnas eletrônicas brasileiras em diversas ocasiões: 2017, 2020, 2022 e novamente em julho de 2026, quando foi abordado sobre as declarações do senador. A nota oficial do tribunal é clara: “São falsas as informações que circulam nas redes sociais afirmando que a empresa Smartmatic fornece urnas eletrônicas ou softwares utilizados no Brasil. Todo o projeto das urnas eletrônicas brasileiras e do sistema eletrônico de votação foi desenvolvido e é gerido integralmente pela Justiça Eleitoral nacional.”

A Smartmatic realmente teve relação com o TSE, mas sob um contexto completamente diferente do alegado pelo senador. Conforme esclarecido pela Justiça Eleitoral, a empresa firmou contratos apenas para serviços relacionados à conexão de dados e voz além do treinamento de profissionais técnicos. Ela não fabricou nem programou qualquer equipamento utilizado na votação. Além disso, participou de uma licitação para a fabricação das urnas em 2020, mas perdeu para a empresa Positivo.

O TSE ressalta ainda que seu sistema eletrônico de votação “utiliza meios próprios e criptografados para comunicação e transmissão de dados”, sem qualquer conexão com redes públicas como a internet. Ao longo dos últimos 20 anos, esse sistema tem sido “reiteradamente testado e comprovadamente livre de qualquer forma de manipulação”.

Estrategia de descredibilização e solicitação por observadores

A situação vivida em Brasília possui um precedente político significativo. Em 2022, Jair Bolsonaro convocou embaixadores para uma reunião transmitida pela televisão pública onde questionou o sistema eleitoral sem apresentar evidências concretas. O TSE considerou essa atitude como abuso de poder político ao propagar informações já desmentidas anteriormente, resultando na inelegibilidade do ex-presidente. Flávio mencionou esse episódio durante seu discurso ao caracterizar seu pai apenas como alguém preocupado — uma interpretação não aceita pelo tribunal eleitoral naquele momento.

A contradição nas declarações feitas por Flávio é evidente: enquanto ele assegurava “não estar questionando o sistema eleitoral brasileiro”, utilizava informações falsas sobre a origem das urnas para justificar seu pedido por observadores com “conhecimento nessa tecnologia”. Afirmar que as urnas têm uma origem duvidosa enquanto simultaneamente nega estar questionando o sistema evidencia uma lógica insustentável.

A propagação de desinformação para diplomatas internacionais representa uma tentativa clara de internacionalizar as alegações sobre fraude eleitoral, comprometendo a imagem do Brasil no exterior e preparando terreno para possíveis contestações futuras caso os resultados das eleições não sejam favoráveis ao grupo bolsonarista.

Esse padrão remete diretamente à estratégia adotada pelo pai que resultou na sua inelegibilidade: utilizar um fórum diplomático para semear dúvidas quanto à legitimidade do processo eleitoral através de informações já refutadas pelo próprio TSE. Vale ressaltar que Flávio se lembrou cuidadosamente da situação enfrentada por Jair antes de seguir esse mesmo caminho.