quarta-feira, junho 3

Zhou Enlai: O mestre da diplomacia chinesa, nos bastidores por décadas

Poucos líderes do século 20 exerceram tanta influência internacional com tão pouca exibição pessoal quanto Zhou Enlai. Primeiro-ministro da China de 1949 até sua morte, em 1976, ele foi o principal arquiteto da política externa da República Popular em seus anos iniciais. 

Zhou Enlai – biografia

Nascido em 1898, Zhou viveu a transição da China imperial para a república e, depois, para a libertação liderada pelo Partido Comunista. Estudou no Japão e na França, onde teve contato com ideias socialistas e ajudou a organizar estudantes chineses no exterior. 

Essa formação cosmopolita marcou sua atuação futura. Diferentemente de outros dirigentes revolucionários, ele dominava idiomas, compreendia a cultura política ocidental e sabia circular em ambientes diplomáticos com naturalidade.

Com a vitória comunista em 1949, Zhou assumiu o cargo de primeiro-ministro e também a chancelaria. Nos primeiros anos da República Popular, a China enfrentava isolamento internacional, embargo dos Estados Unidos e a Guerra da Coreia. Zhou foi o rosto do novo socialismo chinês no exterior. Defendeu a soberania, mas evitou retórica desnecessariamente inflamada em encontros multilaterais.

O pensamento de Zhou Enlai

Um dos momentos decisivos de sua carreira foi a Conferência de Bandung, em 1955. Ali, representantes de países asiáticos e africanos recém-independentes discutiram caminhos próprios em meio à Guerra Fria. Zhou apresentou a China como parceira do chamado Terceiro Mundo, defendendo princípios de coexistência pacífica e respeito à soberania. Sua postura conciliadora ajudou a reduzir desconfianças e consolidou laços com nações da Ásia e da África.

“Usaremos apenas meios pacíficos e não permitiremos nenhum outro tipo de método.”

Sua habilidade mais conhecida apareceu no início dos anos 1970. Após duas décadas de hostilidade, China e Estados Unidos começaram um processo de reaproximação. Zhou foi peça-chave nas negociações secretas que antecederam a visita do presidente Richard Nixon a Beijing, em 1972, também mediada por Henry Kissinger

“Em primeiro lugar, gostaria de abordar a questão das diferentes ideologias e sistemas sociais. Temos de admitir que, entre os nossos países asiáticos e africanos, existem ideologias e sistemas sociais diferentes. Mas isso não nos impede de procurar um terreno comum e de nos unirmos.”

O encontro mudou o equilíbrio geopolítico da Guerra Fria e abriu caminho para a normalização das relações sino-americanas. Zhou conduziu as conversas com firmeza e pragmatismo, sem abandonar posições centrais de Beijing.

Os princípios da coexistência pacífica

Ao longo de quase três décadas no poder, ele ajudou a formular os chamados Cinco Princípios da Coexistência Pacífica, que incluem respeito à integridade territorial, não agressão e não interferência em assuntos internos. Esses princípios se tornaram base da diplomacia chinesa até os dias de hoje.

Zhou Enlai morreu em janeiro de 1976, poucos meses antes de Mao Zedong. Seu funeral provocou manifestações espontâneas de luto em várias cidades chinesas.

Discreto, metódico e estrategista, Zhou Enlai não foi o principal ideólogo da revolução chinesa, mas foi o homem que deu forma prática à sua presença no mundo, guiando a ideologia da diplomacia do país até os dias de hoje.

Em tempos de confrontos globais, sua marca foi a negociação paciente. A política externa da China contemporânea ainda carrega a ideologia do modelo que ele ajudou a construir.

Para saber mais sobre a história e a atualidade do país, leia a coluna China em Foco aqui na Revista Fórum.