Em 9 de setembro de 1976, morreu Mao Zedong, fundador da República Popular da China e uma das figuras políticas mais importantes e controversas do século XX. Cinquenta anos depois, sua trajetória continua sendo objeto de intensos debates históricos, políticos e acadêmicos. Mas, para além do líder revolucionário e estadista, Mao também cultivou durante toda a vida uma relação profunda com a literatura clássica chinesa e deixou uma produção poética que atravessa diferentes momentos de sua trajetória.
Seus poemas não podem ser separados do contexto político e histórico em que foram escritos. Neles aparecem paisagens chinesas, referências à tradição literária, lembranças da juventude, guerras, revoluções e transformações sociais. Ao mesmo tempo, Mao recorre frequentemente a imagens da natureza para refletir sobre temas como passagem do tempo, mudança histórica, juventude e destino coletivo.
A poesia ocupava um lugar importante na tradição intelectual chinesa, especialmente entre os letrados formados pelo contato com os clássicos. Mao conhecia essa tradição e utilizava formas poéticas antigas para registrar acontecimentos de seu próprio tempo. Em seus versos, personagens históricos, rios, montanhas e episódios da revolução aparecem lado a lado, criando uma ponte entre a China imperial e a China revolucionária do século XX.
Os quatro poemas reunidos abaixo foram escritos em momentos bastante diferentes. “Changsha”, de 1925, remete à juventude e às experiências políticas que antecederam a revolução. “Neve”, de 1936, combina a grandiosidade da paisagem chinesa com uma reflexão sobre os grandes personagens da história. “O ELP toma Nanquim”, de 1949, foi escrito durante a vitória comunista na Guerra Civil Chinesa. Já “Natação”, de 1956, retoma imagens de sua juventude e associa a paisagem do rio Yangtzé às grandes transformações que estavam em curso no país.
Mais do que documentos políticos, os poemas revelam também o Mao poeta e sua relação com a tradição literária chinesa.
Changsha (1925), de Mao Zedong
Enquanto o rio Xiang corre para o norte,
na ponta da Ilha das Laranjas.
Vejo dez mil colinas em brilho carmesim,
suas florestas, camada após camada, tingidas;
pelo rio cristalino, centenas de barcos avançam.
Águias cortam o alto céu,
peixes deslizam nas águas límpidas;
sob o céu de geada, miríades de seres lutam para ser livres.
Diante da vastidão sem limites, pergunto:
quem governa a ascensão e a queda desta terra?Aqui estive com uma multidão de companheiros;
ainda vivos na memória, aqueles meses e anos extraordinários.
Éramos estudantes, jovens,
na plenitude da vida;
estudiosos de espírito e vontade,
impetuosos no vigor da juventude.
Apontávamos para nossos rios e montanhas,
elogiávamos e denunciávamos com nossas palavras,
sem nos importarmos com fortuna ou fama!
Lembras-te de como, no meio da corrente,
golpeávamos as águas
e as ondas detinham os barcos velozes?
Neve (fevereiro de 1936), de Mao Zedong
A cena do norte: mil léguas de gelo, dez mil léguas onde a nevasca sopra.
Dentro e fora da Grande Muralha, uma lâmina de prata cintila.
A torrente furiosa do Rio Amarelo congela no tempo, imóvel em seu curso.
As montanhas dançam como serpentes de prata; elefantes de cera correm pelas planícies,
disputando o zênite com o próprio Senhor dos Céus.
Num dia claro, vestida de brilho carmesim, a terra se torna encantadora.Esta terra, tão rica em beleza, fez muitos heróis de outrora se curvarem.
Mas, ai! Qin Shihuang e Han Wudi careciam de brilho literário;
Tang Taizong e Song Taizu conheciam pouco da arte poética.
Aquele orgulho do Céu, Gengis Khan,
sabia apenas atirar contra águias com seu arco estendido.
Todos passaram! A verdadeira grandeza, porém,
é em nossa própria era que deve ser procurada.
O ELP toma Nanquim (abril de 1949), de Mao Zedong
O vento uiva e a chuva cai sobre Zhongshan ao entardecer;
um milhão de valentes guerreiros atravessa o grande rio.
Como tigre agachado e dragão enroscado,
a cidade hoje supera sua glória passada.
O céu se vira, a terra se revolve:
o mundo inteiro parece transformado.
Devemos usar a coragem que resta para perseguir o inimigo acuado;
não buscaremos fama imitando o antigo Hegemônico Rei.
Se o próprio Céu tivesse sentimentos, também envelheceria;
o caminho justo do mundo é feito de profundas transformações.
Natação (1956), de Mao Zedong
Em Changsha bebi a água do Xiang; agora saboreio o peixe de Wuchang.
Atravesso a nado dez mil léguas do Rio Yangtzé;
erguendo os olhos, vejo o vasto céu do antigo reino de Chu.
Que soprem os ventos e batam as ondas!
É melhor do que um passeio ocioso por um pátio;
hoje estou tranquilo e livre.
À margem do rio, o Mestre disse:
“Assim, como uma corrente, passa o tempo!”O vento enche as velas;
a Tartaruga e a Serpente permanecem imóveis;
grandes planos se erguem.
Uma ponte voa de sul a norte,
e o profundo abismo torna-se uma estrada.
A oeste se levantará uma grande muralha de pedra,
detendo as nuvens e as chuvas do monte Wu;
um grande lago surgirá entre as altas gargantas.
A Deusa da Montanha permanecerá ilesa
e se espantará diante de um mundo tão transformado.
