O Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) Gold Style, sob a administração da Reag Trust e alvo de investigações por ter recebido R$ 1 bilhão de empresas relacionadas ao esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), também realizou operações financeiras no valor de R$ 20 milhões com a Entre Investimentos e Participações. Esta última empresa foi utilizada por Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master, para financiar a produção do filme Dark Horse, que aborda a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Essas informações foram extraídas de relatórios de inteligência financeira do Coaf, que foram encaminhados à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado. A análise dos dados baseou-se em comunicações bancárias que revelam transações com “camadas complexas”, destinadas a esconder os verdadeiros beneficiários e dificultar o rastreamento dos recursos. A divulgação dessas informações ocorreu nesta sexta-feira (11) por Vinicius Sassine e Thaísa Oliveira.
Conexões suspeitas do Fundo Gold Style
Fundado em abril de 2020 com um aporte inicial de R$ 480,1 milhões, o FIDC Gold Style viu seu patrimônio líquido crescer para R$ 1,84 bilhão até maio de 2024, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A gestão completa do fundo é realizada pela Reag Trust, que centraliza todas as operações. No entanto, não é possível identificar os proprietários e beneficiários finais do fundo, uma falha que investigadores afirmam ter sido explorada pela Reag e pelo Banco Master para cometimento de fraudes e inflacionamento artificial dos ativos.
Os documentos enviados ao Coaf revelam que o Gold Style recebeu R$ 1 bilhão de empresas reconhecidas pela Polícia Federal como parte do esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. Entre essas empresas estão a Aster Petróleo, que transferiu R$ 759,5 milhões; a BK Bank, com repasses totalizando R$ 158 milhões; e a Inovanti Instituição de Pagamento, que movimentou R$ 175 milhões. Todas elas estão sendo investigadas na Operação Carbono Oculto, cuja análise cobre o período entre 2023 e 2025.
Além dos valores recebidos, o mesmo fundo também registrou operações envolvendo R$ 20 milhões com a Entre Investimentos e Participações. Relatórios do Coaf indicam que essas transações foram usadas para “mascarar beneficiários” e dificultar a identificação dos envolvidos nas operações financeiras. Quando abordada sobre o assunto pela reportagem, a Reag Trust optou por não comentar.
A infiltração do PCC no sistema financeiro
A Aster Petróleo tem sido identificada como uma figura-chave em um esquema criminoso relacionado à fraude e sonegação fiscal no setor de combustíveis em oito estados brasileiros. Essa distribuidora atuou como um mecanismo essencial para lavagem de dinheiro e evasão fiscal em larga escala. O Banco do Brasil notificou o Coaf sobre os repasses significativos da Aster ao Gold Style em agosto de 2024, antes mesmo da operação policial ser deflagrada.
A BK Bank é outra fintech sob investigação que realizou transferências no montante de R$ 158 milhões ao fundo. Segundo investigações conduzidas pela Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo, essa instituição facilitou ações da facção criminosa através da criação de contas-bolsão em bancos, onde depósitos variados eram concentrados, tornando difícil o rastreamento das movimentações financeiras. Essa estrutura conferia às empresas fictícias controladas pelo grupo uma aparência legítima nas transações. Por outro lado, a Inovanti Instituição de Pagamento movimentou mais de R$ 778 milhões provenientes de pessoas físicas e jurídicas também investigadas na Operação Carbono Oculto.
A Operação Carbono Oculto, conforme já noticiado anteriormente, investiga a infiltração do PCC no sistema financeiro brasileiro, utilizando esse meio para dar uma fachada legal aos recursos ilícitos. As autoridades suspeitam que a facção tenha se utilizado da estrutura dos fundos geridos pela Reag Trust para realizar operações fraudulentas através do mecanismo com único cotista—um artifício que complica ainda mais a identificação dos beneficiários finais e torna quase impossível o rastreamento sem acesso a documentos confidenciais.
A produção cinematográfica Dark Horse sob suspeita
A ligação entre o fundo Gold Style e o cenário político relacionado ao bolsonarismo se dá por meio da Entre Investimentos e Participações. Essa empresa foi responsável por intermediar os repasses financeiros ao filme Dark Horse, documentário sobre Jair Bolsonaro produzido com um investimento total estimado em R$ 134 milhões exigido por Daniel Vorcaro. O filme conta com participações diretas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro.
A atuação da Reag Trust no escândalo envolvendo o Banco Master
A Reag Trust ocupa uma posição central nas investigações atuais: ela é responsável pela administração integral do Gold Style e figura em duas grandes operações policiais. A gestora foi alvo da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes relacionadas ao Banco Master e resultou na prisão novamente de Daniel Vorcaro em março deste ano. As suspeitas recaem sobre a Reag quanto à sua participação na estruturação e gestão de uma rede complexa envolvendo fundos suspeitos que movimentavam recursos atípicos, inflando resultados financeiros enquanto ocultavam riscos associados à lavagem de dinheiro. Em janeiro passado, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag Investimentos pouco depois da solvência declarada do Banco Master.
Agestora também está sob investigação na Operação Carbono Oculto, que foca em um esquema bilionário vinculado à lavagem de dinheiro no setor combustível atribuído aos membros do PCC. Com sua inclusão em operações investigativas tanto sobre fraudes nos mercados financeiros quanto sobre lavagem relacionada ao crime organizado, a Reag se torna um ponto central numa teia conectando práticas ilícitas ao sistema financeiro regulado. O fundo Gold Style permanece operando “normalmente”, segundo as informações mais recentes disponíveis publicamente.
Consequências das investigações em andamento
As novas informações sobre o Gold Style trazem à tona questões já acompanhadas: as relações entre Faria Lima e atividades criminosas são cada vez mais evidentes especialmente após os escândalos relacionados ao Banco Master. A complexidade das estruturas como as desse fundo—com beneficiários ocultos e diversas camadas transacionais—levanta preocupações acerca da eficácia da supervisão realizada pelo Banco Central e pela CVM. O modelo adotado pelo fundo com único cotista representa um ponto cego na regulação financeira que as investigações atuais destacam.
A CPI do Crime Organizado já recebeu as informações referentes às movimentações financeiras do Gold Style enviadas pelo Coaf, sinalizando um avanço nas apurações parlamentares sobre essas ligações suspeitas. O recebimento desses dados permite futuras convocações ou pedidos documentais adicionais ao Ministério Público Federal, ampliando as implicações políticas e judiciais desse caso delicado.
A intersecção entre as práticas criminosas associadas à lavagem de dinheiro pelo PCC e o financiamento cinematográfico mediado por filhos do ex-presidente Bolsonaro através de um fundo administrado por uma gestora já liquidada evidencia um enigma complexo ainda sendo desvendado pelas autoridades competentes. A liquidação tanto da Reag quanto do Banco Master junto às duas operações policiais ativas indicam que estamos apenas começando um período intenso de fiscalização sobre fundos investimentos no Brasil—um cenário cujos indícios já lançam dúvidas sobre a narrativa vigente acerca das operações desses veículos financeiros distantes das práticas ilegais devido à falta regulatória adequada.
