sábado, julho 11

Cesta básica atinge novos patamares em 17 cidades, demandando cinco salários mínimos para sustentar uma família, revela estudo do Dieese

Em junho de 2026, o preço da cesta básica teve um aumento em 17 das 27 capitais do Brasil, conforme demonstrado pela Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, elaborada mensalmente pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em colaboração com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

O levantamento revelou que São Paulo apresentou o maior valor absoluto do país, com um custo de R$ 965,47. Boa Vista, por sua vez, foi a capital que registrou a maior alta percentual no mês. O estudo também indicou que o salário mínimo necessário para sustentar uma família composta por quatro pessoas seria de R$ 8.110,92, ou seja, cinco vezes superior ao atual piso salarial de R$ 1.621. Esse dado evidencia a crescente disparidade entre os ganhos dos trabalhadores e o valor necessário para garantir uma alimentação digna.

Aumento da cesta básica em 17 capitais

A principal causa do aumento nos preços em junho foi o feijão, que teve alta em todas as capitais analisadas. A pressão sobre os preços se deve à diminuição da área plantada e às condições climáticas adversas que afetaram tanto a primeira quanto a segunda safra.

Além do feijão, outros produtos como arroz agulhinha, carne bovina de primeira qualidade, batata, tomate e leite integral também apresentaram elevações nos preços. Em contraste, itens como café em pó, açúcar e óleo de soja tiveram uma redução nos valores durante o mesmo período.

Boa Vista teve a maior alta percentual com um aumento de 3,28%, seguida por Palmas (3,01%), Rio Branco (2,20%) e Porto Alegre (2,18%). Em termos absolutos, São Paulo encerrou junho com a cesta básica mais cara do Brasil ao custo de R$ 965,47. As outras capitais com cestas caras incluem Cuiabá (R$ 937,93), Rio de Janeiro (R$ 920,94) e Florianópolis (R$ 918,42).

No extremo oposto da lista estão Aracaju (R$ 630,40), São Luís (R$ 654,73), Maceió (R$ 671,41) e Natal (R$ 686,07). O Dieese destaca que as composições das cestas básicas variam entre as regiões Norte e Nordeste em comparação ao Sul e Sudeste. Isso dificulta comparações diretas dos valores absolutos entre essas áreas. Durante o primeiro semestre deste ano, todas as capitais apresentaram aumentos nos preços da cesta básica; as variações foram de 4,02% em São Luís até impressionantes 21,48% em Fortaleza.

Salário mínimo insuficiente para atender necessidades essenciais

Com o custo da cesta básica em São Paulo como referência, o Dieese calculou que o salário mínimo adequado para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 8.110,92 em junho de 2026 — um valor cinco vezes maior que o salário mínimo vigente de R$ 1.621.

Esse cálculo é baseado na determinação constitucional que estabelece que o salário mínimo deve cobrir despesas relacionadas à alimentação, habitação, saúde, educação, vestuário e outras necessidades básicas. A diferença entre o valor estimado e o atual não é novidade; ela tem crescido constantemente. Em junho de 2025, quando o piso era R$ 1.518, a estimativa para um salário digno era de R$ 7.416,07 — ou seja, cerca de 4,89 vezes aquele valor.

A realidade dessa discrepância reflete diretamente no orçamento dos trabalhadores: em média, no mês passado os trabalhadores comprometiam cerca de 52,02% do rendimento líquido — já descontados os contribuintes da Previdência Social — apenas para comprar os itens da cesta básica.

Esse percentual é superior ao registrado no mesmo mês do ano anterior (51,13%). Isso significa que mais da metade do rendimento mensal vai exclusivamente para alimentação essencial sem deixar margem para gastos com moradia ou saúde.

Efeitos da inflação alimentar sobre o poder aquisitivo

A contínua alta nos preços de alimentos como feijão e carne não é um fenômeno isolado apenas deste mês; trata-se do resultado acumulado de uma crise no poder aquisitivo que afeta gradualmente as finanças das famílias trabalhadoras.

Quando mais da metade do salário líquido está comprometida apenas com alimentos básicos essenciais، qualquer novo aumento no preço pode forçar famílias inteiras a fazer escolhas difíceis entre se alimentar ou pagar contas como aluguel ou medicamentos.

A análise regional dos preços também merece atenção cuidadosa. Os menores valores registrados nas regiões Norte e Nordeste podem dar a impressão inicial de que a situação nessas áreas seja menos grave. Contudo,a composição específica das cestas alimentares nessas localidades indica que elas já partem de padrões alimentares mais restritos; assim,o impacto percentual no orçamento familiar pode ser tão severo quanto na região Sul e Sudeste. Uma cesta menor não garante adequação nutricional suficiente.

A dependência excessiva do feijão — cuja oferta varia conforme fatores climáticos e decisões agrícolas — revela uma fragilidade estrutural na segurança alimentar brasileira.

A diminuição das áreas cultivadas e as dificuldades climáticas enfrentadas nas safras deste ano não são novidades para quem acompanha o setor agrícola; isso torna ainda mais urgente discutir políticas voltadas para incentivar a produção voltada ao mercado interno e estabilizar os preços dos alimentos fundamentais. Enquanto essa pauta não avançar,são os trabalhadores que arcam com as consequências ao terminarem o mês sem conseguir equilibrar suas finanças.