O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se apresenta como pré-candidato à presidência, trouxe à tona a ideia de estabelecer uma zona de livre comércio na América, reanimando um projeto que já havia sido arquivado há 20 anos: a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Essa iniciativa foi liderada pelos EUA nos anos 90 e encontrou forte oposição de governos da América Latina devido ao seu potencial de intensificar a dependência econômica da região em relação a Washington.
Em sua visita aos Estados Unidos, onde participou de uma audiência no Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) para discutir a tarifa de 25% aplicada a produtos brasileiros, Flávio expressou sua intenção de negociar com o governo Trump um acordo inspirado no antigo Nafta, atualmente conhecido como USMCA, mas que seria expandido para incluir outras nações do continente.
O senador até sugeriu uma nova sigla: Afta (Americas Free Trade Agreement), argumentando que seria viável “eliminar essa letrinha N” do Nafta e estabelecer um “Acordo de Livre Comércio das Américas”. Ele indicou que Brasil, Estados Unidos e Argentina poderiam constituir uma nova área comercial.
A proposta foi acompanhada de críticas ao governo Lula, acusado por Flávio de ser “lambe-botas da China” e priorizar “ideologias em detrimento dos interesses do povo brasileiro”.
Definição e contexto da Alca
As negociações para a Alca tiveram início em 1994, durante a primeira Cúpula das Américas, realizada em Miami sob o governo do presidente Bill Clinton. O objetivo era criar uma ampla área de livre comércio abrangendo quase todo o continente americano, do Canadá até a Argentina.
O plano visava eliminar tarifas e barreiras comerciais, facilitando o fluxo de produtos, serviços e investimentos entre os países participantes.
Os apoiadores da proposta acreditavam que a liberalização dos mercados impulsionaria o comércio, atrairia investimentos estrangeiros e promoveria a integração econômica das Américas.
Entretanto, os críticos apontavam um problema central: as significativas desigualdades entre as economias envolvidas.
Enquanto os Estados Unidos possuíam uma das mais robustas estruturas industriais e financeiras globalmente, muitos países latino-americanos ainda lutavam para desenvolver suas próprias cadeias produtivas. A preocupação era que uma abertura excessiva colocasse empresas brasileiras e latino-americanas em concorrência desleal com gigantes norte-americanas.
Os riscos de subordinação econômica da América Latina aos EUA
A crítica principal à Alca era que o acordo poderia aprofundar uma divisão econômica histórica: países latino-americanos exportando cada vez mais matérias-primas enquanto importavam bens industriais e tecnológicos com maior valor agregado.
Para os opositores, isso poderia desencadear um novo ciclo de desindustrialização, tornando setores nacionais incapazes de competir com as empresas norte-americanas.
Entre os principais pontos debatidos estavam:
- a assimetria econômica: países com níveis distintos de desenvolvimento estariam sujeitos às mesmas regras comerciais;
- a diminuição do espaço para política industrial: os governos teriam menos liberdade para proteger setores estratégicos ou promover empresas locais;
- a dependência tecnológica: regras mais rigorosas sobre propriedade intelectual poderiam limitar o acesso a tecnologias e medicamentos;
- o aumento da influência americana: Washington passaria a ter ainda mais poder sobre as decisões econômicas do continente.
No caso do Brasil, críticos argumentavam que a Alca poderia transformar o país em um fornecedor majoritário de commodities para os Estados Unidos, diminuindo sua capacidade competitiva nos setores industrial e tecnológico.
Lula e a articulação contra a Alca
A resistência à Alca ganhou força especialmente na década de 2000, quando governos progressistas ascenderam ao poder em diversos países latino-americanos.
No Brasil, sob Luiz Inácio Lula da Silva desde 2003, houve um papel crucial na alteração do rumo das negociações. Lula não se opôs à ideia de integração comercial, mas defendia que qualquer acordo deveria considerar as disparidades econômicas entre os países envolvidos e assegurar condições equitativas.
O governo brasileiro passou a exigir medidas como redução dos subsídios agrícolas dos EUA, que favoreciam produtores norte-americanos, além de normas que protegessem políticas nacionais de desenvolvimento.
A estratégia adotada por Lula consistiu em articular uma posição unificada com outros governos da região, especialmente Argentina e Venezuela, evitando negociações isoladas com Washington por parte dos países latino-americanos.
Um marco decisivo ocorreu em 2005 durante a Cúpula das Américas em Mar del Plata. Na ocasião, os EUA tentaram retomar as negociações sobre a Alca, mas enfrentaram resistência por parte do Brasil, Argentina, Venezuela e outras nações.
Sem consenso entre os participantes, o projeto perdeu força e foi abandonado.
“Alca, al carajo”: um grito emblemático contra o acordo
Um dos momentos mais marcantes da oposição à Alca aconteceu exatamente em Mar del Plata. O então presidente venezuelano Hugo Chávez transformou sua rejeição ao acordo em um símbolo político forte.
Diante de milhares durante uma manifestação paralela à cúpula, Chávez expressou sua posição com uma frase célebre: “Alca, al carajo!” (“Alca, para o inferno!”).
Essa expressão tornou-se um reflexo da perspectiva de setores da esquerda latino-americana que viam o projeto não como uma verdadeira integração entre países soberanos, mas sim como uma expansão da influência econômica dos Estados Unidos na região.
Assista ao discurso:
Vinte anos depois: um retorno inquietante
A proposta feita por Flávio Bolsonaro para instituir uma nova área comercial nas Américas surge em um contexto distinto mas revive um debate crucial sobre soberania econômica no continente.
Curiosamente, a sigla Afta sugerida pelo senador também remete ao nome considerado originalmente pelos negociadores americanos para a própria Alca. Essa mudança ocorreu devido às conotações negativas associadas ao termo tanto em português quanto espanhol — lembrando tanto aftas bucais quanto febre aftosa — um tema sensível para exportadores de carne como o Brasil.
Ao advogar por uma nova zona comercial sob liderança americana enquanto busca mitigar os impactos das tarifas elevadas contra produtos brasileiros — ação promovida pelo governo Trump apoiada pelo grupo político do senador — Flávio relança no debate uma escolha estratégica fundamental: integrar-se subordinadamente aos interesses da maior potência econômica do continente ou optar por uma política externa voltada para maior autonomia e equilíbrio nas relações internacionais.
A proposta simboliza o ressurgimento de uma antiga abordagem: renunciar instrumentos essenciais ao desenvolvimento nacional em troca da promessa nebulosa de investimentos e acesso privilegiado ao mercado americano. Uma abordagem que há duas décadas foi amplamente rejeitada pelos governos progressistas da América Latina durante as discussões sobre a Alca.
