Um dos mais significativos achados arqueológicos da Europa foi alvo de um roubo audacioso que durou apenas quatro minutos. Criminosos invadiram o Museu de Villena, localizado na província de Alicante, Espanha, levando consigo a maior parte de uma coleção composta por objetos feitos de ouro, prata, ferro e âmbar, datados de aproximadamente 3 mil anos.
Conhecido como Tesouro de Villena, o acervo é formado por 66 peças e contém quase dez quilos de ouro. Este conjunto é considerado uma das mais importantes expressões da ourivesaria pré-histórica na Europa e frequentemente é comparado aos tesouros descobertos nas tumbas reais de Micenas, na Grécia.
O alarme do museu soou às 5h20 da manhã desta quinta-feira (27). Quando as forças de segurança chegaram ao local às 5h24, os criminosos já haviam conseguido escapar.
A rapidez e a organização demonstradas pelos ladrões sugerem que eles possam fazer parte de uma quadrilha especializada em roubos de patrimônio histórico. A Guarda Civil espanhola está analisando imagens das câmeras de segurança para tentar traçar a rota utilizada pelos veículos durante a fuga.
Museo Arqueológico Municipal de Villena – Espanha/Imagem: Divulgação
Fulgencio Cerdán, prefeito de Villena, revelou que a maioria das peças originais expostas foi levada pelos assaltantes.
Entre os itens que ficaram para trás estão três recipientes de prata, um bracelete, partes dos adornos de um bastão e uma das quatro coroas que faziam parte de outra coleção religiosa. Uma das peças foi deixada no local após ter caído durante a fuga.
Ainda está em andamento o inventário completo dos objetos subtraídos. As autoridades buscam determinar com precisão quantos itens foram roubados e quais danos foram causados às instalações do museu.
A entrada dos criminosos se deu por uma lateral do edifício, após eles terem rompido uma estrutura de proteção. Informações preliminares indicam que múltiplos veículos foram utilizados na ação criminosa.
A administração municipal informou que os sistemas de segurança foram ativados. A investigação busca entender como os invasores conseguiram localizar, retirar e transportar tantas peças em um espaço tão breve.
Possível distração com alarme
Cerca de quatro minutos antes do roubo começar, às 5h16, outro alarme disparou no centro esportivo municipal da cidade.
A polícia investiga se essa primeira ocorrência foi intencionalmente acionada para desviar as forças de segurança e afastar as patrulhas da área do museu.
Ainda não há confirmação sobre a relação entre os dois eventos. Se comprovada a suspeita, o disparo do primeiro alarme indicaria que o crime foi meticulosamente planejado por indivíduos familiarizados com os protocolos de segurança locais.
Além disso, está sendo investigada uma possível conexão com outros roubos recentes ocorridos em museus na Espanha e em outras partes da Europa.
Tesouro contém artefatos feitos com ferro meteorítico
Descoberto em dezembro de 1963 pelo arqueólogo espanhol José María Soler, o Tesouro de Villena estava oculto dentro de um recipiente enterrado no leito seco de uma rambla, um tipo comum de curso d’água temporário na região alicantina.
A coleção compreende 66 objetos distintos, incluindo 28 braceletes feitos de ouro, 11 tigelas e recipientes similares a garrafas, além de várias peças decorativas. Também são parte do acervo itens confeccionados com prata, âmbar e ferro.
Duas das peças incluem ferro proveniente de meteoritos que atingiram a Terra. De acordo com informações da Prefeitura local, esses são os únicos artefatos desse tipo identificados na Península Ibérica.
Embora os objetos tenham sido enterrados há cerca de 3 mil anos, arqueólogos ainda debatem sua função original. Uma teoria sugere que foram enterrados como forma de proteção durante um conflito; outra hipótese indica que eram oferecidos como oferenda.
Valor histórico incalculável
Mais importante do que o conteúdo em ouro é o valor arqueológico do Tesouro de Villena, cuja importância não pode ser medida. As peças ajudam pesquisadores a entender as técnicas utilizadas na produção, as relações comerciais e as formas organizacionais das sociedades que habitaram a Península Ibérica durante a Idade do Bronze.
A maior preocupação é que esses objetos sejam desmontados ou derretidos. Ao contrário das obras reconhecidas internacionalmente em pintura ou escultura, itens feitos com metais preciosos podem ser destruídos para ocultar sua origem e dificultar sua identificação pelas autoridades policiais.
O roubo gerou grande consternação na comunidade local em Villena, onde o tesouro é considerado parte fundamental da identidade histórica dos moradores. O novo museu da cidade havia sido inaugurado em maio deste ano e contava com uma sala especial dedicada à exibição dessa coleção original.
No momento, a Guarda Civil trabalha para localizar os responsáveis pela ação antes que as peças sejam retiradas do país ou vendidas ilegalmente ou até mesmo destruídas. O museu permanece isolado enquanto peritos coletam impressões digitais e analisam gravações das câmeras para auxiliar nas investigações.
