As relações bilaterais entre países se fundamentam na convergência de interesses e valores, sendo essa harmonia crucial para a eficácia da parceria. Representantes importantes do Sul Global, Brasil e China estão emergindo como protagonistas na economia mundial. De acordo com estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil deverá recuperar a oitava posição entre as maiores economias do mundo até 2027, alcançando um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 2,8 trilhões. Por outro lado, a economia da China está prevista para crescer de forma acelerada em 2026, consolidando-se como a maior economia global em um futuro próximo. Além da dimensão econômica, ambos os países são defensores de uma ordem internacional multipolar e promovem uma governança baseada em negociações e colaborações. Essa sinergia estabelece uma base comum para uma integração multidimensional que busque um desenvolvimento conjunto e benéfico para ambos.
A restauração da estabilidade institucional e o fortalecimento das relações diplomáticas de alto nível sob a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram cruciais para reestabelecer a confiança entre Beijing e Brasília, além de acelerar a cooperação estratégica. É essa previsibilidade política que trouxe novo vigor à parceria sino-brasileira, tornando-a um modelo exemplar de colaboração vantajosa.
Em primeiro lugar, essa colaboração se baseia nos princípios essenciais do direito internacional: respeito mútuo e igualdade. Desde o início das relações diplomáticas em 1974, o progresso no relacionamento bilateral tem sido notável. O Brasil foi pioneiro ao firmar uma parceria estratégica com a China em 1993, demonstrando uma compreensão aguçada das mudanças no sistema internacional após a Guerra Fria. Desde então, o relacionamento tem avançado de maneira consistente. A atuação pragmática e soberana do governo brasileiro na esfera internacional tem fortalecido ainda mais essa confiança mútua, apoiando os respectivos caminhos de desenvolvimento e promovendo um entendimento sobre a agenda bilateral estratégica, que inclui a tendência à multipolaridade e à reforma da governança global — criando assim as bases para um novo tipo de interação entre potências.
Em segundo lugar, tanto Brasil quanto China adotam uma abordagem cooperativa que prioriza benefícios recíprocos e vantagens complementares. No comércio exterior, a presença chinesa nas transações comerciais brasileiras se destaca significativamente em comparação com parceiros tradicionais: atualmente, a China representa 29% do total das exportações e importações brasileiras. Dados recentes mostram que entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil importou aproximadamente US$ 52 bilhões em produtos da China — quase o dobro do que adquiriu dos Estados Unidos, que somaram US$ 27 bilhões.
Esse vínculo comercial passa por transformações qualitativas e quantitativas significativas: anteriormente centrada na troca de commodities por bens manufaturados primários, a relação evoluiu com os avanços tecnológicos da indústria chinesa. Hoje, o mercado brasileiro recebe componentes de alto valor agregado, maquinário sofisticado e soluções tecnológicas avançadas que fortalecem suas cadeias industriais e aumentam sua competitividade.
Do ponto de vista da economia política internacional, o posicionamento comercial brasileiro revela uma dinâmica intrigante no panorama global. Enquanto muitas nações — tanto desenvolvidas quanto em desenvolvimento — enfrentam déficits comerciais ao negociar com Beijing, o Brasil se destaca por apresentar um superávit comercial robusto com a China. Essa situação é sustentada pela complementaridade estrutural significativa entre os dois países e pela demanda incessante do mercado chinês por commodities estratégicas como soja, minério de ferro e petróleo.
Por outro lado, as trocas comerciais com os Estados Unidos resultam em déficit para o Brasil.
<pNo campo dos investimentos, o Brasil lidera globalmente na captação de capital produtivo proveniente da China. Entre 2007 e 2025, acumula um estoque histórico de US$ 85,5 bilhões distribuídos em 355 projetos. Apenas em 2025, os investimentos chineses no país somaram US$ 6,1 bilhões em 52 projetos espalhados por 20 estados brasileiros — representando um crescimento significativo de 45% em relação ao ano anterior e atingindo o maior volume desde 2018. A maioria dos investimentos (60,9%) foi direcionada para empreendimentos greenfield, resultando diretamente na criação de novas capacidades produtivas e geração de empregos qualificados no Brasil.
Tais aportes têm um papel fundamental na melhoria da infraestrutura e dos serviços públicos essenciais à população brasileira. Os investimentos nas áreas de transmissão elétrica, energias renováveis (solar e eólica), mobilidade elétrica, telecomunicações e logística têm contribuído para modernizar os serviços no país. Adicionalmente, a cooperação tecnológica e científica tem complementado essa sinergia: desde 1988, o programa conjunto envolvendo satélites de recursos terrestres (CBERS) já desenvolveu seis satélites cujos dados são utilizados nos setores agrícola, florestal, gestão hídrica, proteção ambiental e prevenção de desastres.
Em terceiro lugar, esta aliança promove valores como abertura ao diálogo inclusivo e aprendizado mútuo. Com identidades culturais ricas e diversas, os dois países têm estabelecido laços amistosos sólidos. O Brasil possui treze Institutos Confúcio além de uma Sala de Aula Confúcio; enquanto isso, mais de quarenta universidades chinesas oferecem cursos em língua portuguesa. Simultaneamente, os estudos sobre Brasil na China — bem como sobre a China no Brasil — têm recebido forte impulso, reforçando assim uma compreensão mútua crescente. A contribuição da imigração chinesa para o desenvolvimento econômico-social brasileiro é reconhecida amplamente; além disso, há um aumento significativo na simpatia do público chinês pelo Brasil — carinhosamente apelidado de “China Tropical”.
Por último mas não menos importante, a aliança sino-brasileira compromete-se com a promoção do desenvolvimento pacífico global e justiça internacional. Firmes defensores do multilateralismo adequado aos desafios contemporâneos globais، ambos os governos mantêm forte alinhamento diplomático nas suas visões acerca segurança global، civilização humana و governança mundial . Essa sintonia reflete-se nas posturas conjuntas adotadas sobre questões cruciais como transição climática , segurança alimentar ، energia sustentável و reforma financeira global .
A declaração conjunta sobre mudanças climáticas assim como as propostas apresentadas para mediação política da crise na Ucrânia foram recebidas positivamente pela comunidade internacional . Durante a Cúpula do G20 realizada no Rio de Janeiro em 2024 ، sob liderança brasileira ، a China endossou tanto a Aliança Global contra Fome و Pobreza quanto apoiou iniciativas voltadas à Reforma da Governança Global. A proximidade política entre as lideranças dos dois países reafirma seu papel fundamental na articulação dos consensos necessários dentro do Sul Global visando ao desenvolvimento sustentável .
Diante das transformações profundas que marcam o cenário mundial atualmente ، o êxito do modelo sino-brasileiro reside na integração dos interesses mútuos و construção conjunta dos ganhos . Para garantir a continuidade desse relacionamento frutífero ، é imprescindível adotar abordagens inovadoras que incentivem novas dinâmicas colaborativas , explorem vantagens comparativas , promovam conectividade regional و contribuam efetivamente para modernização social و econômica mútua .
A consolidação de um ambiente político estável no Brasil ، que prioriza diálogo diplomático و parcerias estratégicas ، permanece essencial para intensificar essa colaboração exitosa . É tarefa dos dois países continuar defendendo com firmeza os interesses conjuntos do Sul Global , fortalecer suas capacidades produtivas locais و promover uma ordem multipolar justa , equitativa و inclusiva ، desempenhando papel decisivo na promoção da paz mundial و construção de uma comunidade voltada ao futuro compartilhado .
Referências
AGÊNCIA BRASIL. Brasil deve voltar a ser 8ª maior economia do mundo em 2027، prevê FMI. Disponível em: Agência Brasil . Acesso em: out . 2026.
UOL ECONOMIA. PIB da China acelera: o que falta para tirar EUA do topo . Disponível em: UOL Economia . Acesso em: abr . 2026.
CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA (CEBC). Investimentos Chineses no Brasil: Histórico de aportes، projetos greenfield و expansão regional (2007–2025). Disponível em: CEBC – Investimentos Chineses no Brasil.
REVISTA VEJA.China vende quase o dobro dos EUA ao Brasil و acirra disputa com empresas nacionais . Disponível em: Revista Veja – Economia .
Autores
Zhou Zhiwei PESQUISADOR SENIOR DO INSTITUTO DA AMÉRICA LATINA DA ACADÊMIA CHINESA DE CIÊNCIAS SOCIAIS (CASS) E DIRETOR EXECUTIVO DO CENTRO DE ESTUDOS BRASILEIROS.
Melissa Cambuhy i>, advogada و doutoranda في Relações Internacionais (PPGRI-UERJ)، foi pesquisadora visitante no Instituto da América Latina، da Academia Chinesa də Ciências Sociais (CASS). Presidente do think tank independente iBRICS+. Sócia و Chefe do Escritório Permanente de Representação di Licks Attorneys في Shenzhen، الصين. i> p >
