terça-feira, julho 21

Corrida presidencial no Peru: tudo que você precisa entender sobre as eleições

O Peru se aproxima de mais uma eleição presidencial, imerso em uma grave crise de representação e cercado por uma instabilidade crônica. Desde as eleições gerais de 2021, o país andino assistiu à troca de sete presidentes em apenas nove anos, evidenciando a constante tensão entre os Poderes Executivo e Legislativo.

Neste domingo (12), o povo peruano irá às urnas para escolher não apenas o futuro presidente e seus vice-presidentes, mas também para formar um novo Congresso que retornará ao modelo bicameral, composto por 60 senadores e 130 deputados. A previsão é que a votação seja altamente fragmentada, com um recorde de 34 candidatos inicialmente registrados na corrida presidencial.

No sistema eleitoral do Peru, caso nenhum candidato consiga mais de 50% dos votos válidos no primeiro turno — uma situação praticamente esperada segundo as atuais projeções — os dois candidatos mais votados terão que disputar um segundo turno. A desconfiança nas instituições continua alta, com observadores internacionais alertando sobre o enfraquecimento dos mecanismos democráticos no país.

Crise antes das eleições

A sequência de eventos teve início com a posse de Pedro Castillo em 2022, seguido pela sua destituição em dezembro do mesmo ano após uma tentativa fracassada de dissolver o Congresso.

Dina Boluarte assumiu a presidência em meio a intensos protestos, mas foi afastada pelo Legislativo em outubro de 2025 sob a alegação de “incapacidade moral”.

Após Boluarte, José Jerí, então presidente do Congresso, assumiu o cargo, mas sua gestão durou apenas quatro meses; ele foi censurado em fevereiro de 2026 devido a encontros não divulgados com um empresário chinês que estava sob investigação.

Atualmente, José María Balcázar ocupa interinamente a presidência após ser eleito pelo Congresso até que as urnas definam um novo líder.

Principais candidatos ao pleito

No meio deste cenário repleto de candidaturas, cinco nomes se destacam nas pesquisas e nas campanhas eleitorais. Confira os perfis dos principais concorrentes:

Keiko Fujimori (Força Popular)

A herdeira do legado Fujimori é a favorita no primeiro turno Foto: AFP. (Photo by ERNESTO BENAVIDES / AFP)

A líder do Força Popular (FP) está concorrendo à sua quarta eleição presidencial consecutiva (tendo participado das corridas de 2011, 2016 e 2021). Keiko Fujimori, aos 50 anos, tenta se aproveitar da insatisfação com o governo interino e da forte oposição que seu partido exerceu contra os governos de Ollanta Humala, Pedro Pablo Kuczynski, Martín Vizcarra e Pedro Castillo. Sua proposta é de extrema direita e está intimamente ligada ao fujimorismo e às acusações de obstrução parlamentar. Seu parceiro na chapa é Jhon Ramos Malpica.

Rafael López Aliaga (Renovação Popular)

Conhecido como “El Tigre”, Rafael López Aliaga tem 65 anos e ocupa a presidência da Renovação Popular (RP), além de ter sido ex-prefeito da cidade de Lima (2023-2025). Também alinhado à extrema direita, ele é empresário no setor da construção civil. Sua candidatura visa consolidar o apoio do eleitorado conservador insatisfeito com a instabilidade política e o fujimorismo, apresentando-se como uma figura voltada para a administração eficaz.

Alfonso López-Chau (Agora Nação)

Com 75 anos e sendo reitor da Universidade Nacional de Engenharia entre 2021 e 2025, além de ex-integrante do diretório do Banco Central de Reserva do Peru, López-Chau representa uma alternativa tecnocrata pelo partido Agora Nação (AN), que possui uma linha social-democrata. Sua campanha prioriza a competência técnica e busca estabilidade econômica para atrair eleitores moderados cansados da polarização ideológica tradicional. Luis Villanueva integra sua chapa como candidato a vice.

Roberto Sánchez (Juntos pelo Peru)

Líder do partido Juntos pelo Peru (JPP) e ex-ministro do Comércio Exterior e Turismo durante o governo Pedro Castillo, Roberto Sánchez tem 57 anos e busca unir as diversas correntes da esquerda e centro-esquerda dispersas. Desde sua entrada no Parlamento em 2021, ele tenta se distanciar das tendências mais radicais do castillismo ao propor uma agenda focada na reconstrução institucional e social. Analí Márquez é sua candidata a vice.

Carlos Álvarez (País Para Todos)

Carlos Álvarez é um conhecido comediante na mídia peruana com 62 anos que está concorrendo pelo partido País Para Todos (PPT). Sua candidatura simboliza um fenômeno antipolítico e reflete o voto protesto característico em momentos de grande desencanto com a classe política tradicional. Descrito como um candidato da extrema direita, Álvarez utiliza sua popularidade na televisão para criticar o establishment político sem contar com uma base partidária robusta. María Chambizea será sua companheira na chapa.

Cenário das pesquisas eleitorais

As pesquisas indicam um quadro extremamente fragmentado, sem que haja um líder definido capaz de evitar um segundo turno. Os dados mais recentes coletados entre março e início de abril de 2026 por institutos como Ipsos, CPI e Datum Internacional revelam um empate técnico entre os líderes e uma grande quantidade de indecisos.

A seguir estão as médias das intenções de voto para os candidatos:

  • Keiko Fujimori (FP): Apresenta variação entre 16,2% e 18,6%, posicionando-se frequentemente no topo ou em segundo lugar nas pesquisas.
  • Rafael López Aliaga (RP): Seus índices variam entre 10,3% e 17,2%, empatando tecnicamente com Fujimori em algumas sondagens enquanto aparece ligeiramente atrás em outras.
  • Carlos Álvarez (PPT): Surpreende ao alcançar até 11,8% nas análises feitas pela CPI/RPP ocupando frequentemente a terceira posição devido à força do voto antissistema.
  • Alfonso López-Chau (AN): Mantém-se estável com porcentagens entre 4,4% a 8,3%, buscando solidificar seu apoio moderado.
  • Roberto Sánchez (JPP): Flutua entre valores variando entre 3,2% e 9%, tentando expandir sua influência entre os eleitores da esquerda.

A elevada margem de erro somada à significativa quantidade de indecisos — que ultrapassa os 30% em algumas pesquisas — torna os resultados imprevisíveis. Candidatos como César Acuña (Aliança para o Progresso) e Jorge Nieto (Partido do Bom Governo) têm aparecido com percentuais menores que geralmente ficam abaixo dos 6%.

No tocante ao Senado, as pesquisas sugerem que nenhum partido deverá conseguir maioria absoluta; essa realidade deve perpetuar um ambiente legislativo complicado onde coalizões frágeis serão necessárias — característica marcante da última década política peruana.

Atenção internacional sobre erosão democrática

A incerteza eleitoral não é a única preocupação; observadores internacionais também estão alarmados com o estado das instituições peruanas. Em artigo divulgado no dia 9 de abril pela Human Rights Watch (HRW), foi destacado um processo “lento porém constante” de deterioração democrática no país andino. A organização observa que nos últimos anos medidas adotadas pelo Congresso têm enfraquecido o Tribunal Constitucional bem como outros órgãos importantes como o Ministério Público e a Defensoria do Povo.

A HRW aponta que tais ações parecem ser direcionadas à diminuição da responsabilização dos parlamentares investigados por corrupção. Entre os exemplos desse retrocesso estão citações sobre nomeações pouco transparentes no Tribunal Constitucional em 2022 além da troca suspeita de fiscais envolvidos em investigações significativas. O relatório ressalta ainda que após nomeações feitas em 2023 resultaram na escolha de um ex-deputado sem experiência para ocupar o cargo na Defensoria do Povo — impactando negativamente suas funções.

A deterioração do Estado democrático está diretamente relacionada ao aumento da insegurança pública assim como à expansão do crime organizado — ambas questões centrais para os cidadãos peruanos atualmente. Em resposta ao cenário atual, missões observadoras da Organização dos Estados Americanos (OEA), da União Europeia e do Centro Carter estarão presentes durante as eleições no país. Segundo a HRW, esses observadores devem ir além da mera supervisão logística: eles precisam estar prontos para intervir diante quaisquer tentativas que busquem deslegitimar os resultados ou comprometer a independência das instituições eleitorais num momento crucial para a democracia regional.