quinta-feira, setembro 3

China estreita parcerias com países do Sul Global

Em um cenário global marcado por tensões e potencial escalada de conflitos, a China, através das recentes visitas do presidente Xi Jinping ao Egito e ao Quirguistão, tenta promover uma mensagem de paz e colaboração internacional.

Diferentemente da perspectiva ocidental, que enxerga o mundo como um jogo de xadrez com uma lógica de soma zero—onde um ganha enquanto o outro perde—, a China defende o crescimento conjunto entre as nações, fundamentado na cooperação e na troca de conhecimentos.

 

Visita de Estado ao Quirguistão

 

O presidente Xi foi recebido no Quirguistão pelo seu homólogo Sadyr Japarov, com o intuito de estreitar os laços bilaterais. Após essa visita, Xi participou da cúpula da Organização de Cooperação de Shanghai (OCS), realizada em Bishkek.

As relações entre a China e o Quirguistão são sustentadas por pilares como economia, comércio, infraestrutura e integração regional. O Quirguistão é visto como um país estratégico para a China devido à sua posição geográfica nas rotas terrestres da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), tendo sido um dos primeiros nações a apoiar essa proposta lançada por Xi em 2013.

Durante sua estadia, os dois presidentes enfatizaram a ampliação da colaboração em setores como transporte, energia e desenvolvimento econômico. Xi afirmou que as relações bilaterais estão entrando em uma nova fase de progresso, enquanto o governo quirguiz sublinhou a importância da parceria com a China para impulsionar projetos de infraestrutura e acelerar seu crescimento econômico.

A construção e expansão de corredores de transporte ligando China à Ásia Central se destacam como temas estratégicos nas relações entre os países, incluindo desenvolvimentos ferroviários que podem facilitar o comércio regional e beneficiar economias diversas na Eurásia.

 

Cúpula da OCS

 

A participação do presidente chinês na cúpula da OCS foi um dos momentos mais significativos de sua visita a Bishkek. Ele esteve presente ao lado de líderes influentes como Vladimir Putin, premiê indiano Narendra Modi e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian.

<pNa cúpula anterior em Tiajin, Xi apresentou a Iniciativa para a Governança Global (IGG), que se baseia em cinco princípios fundamentais: igualdade soberana entre as nações; aplicação equitativa das regras internacionais; multilateralismo; enfoque centrado nas pessoas; e ações práticas.

A IGG foi proposta em um contexto onde a ordem mundial é dominada por potências ocidentais que frequentemente aplicam critérios duplos. A iniciativa almeja estabelecer uma ordem internacional mais justa e multipolar, conferindo maior voz aos países do Sul Global.

A escolha da cúpula da OCS para lançar esta iniciativa não foi aleatória; trata-se de uma plataforma significativa que representa uma alternativa não ocidental para cooperação política, econômica e em segurança. Com isso, Xi busca demonstrar que a governança global pode ser estruturada em torno de múltiplos centros de poder.

A cúpula deste ano atraiu atenção global sobre o papel crescente da OCS como um fórum eficaz para articulação entre países asiáticos e parceiros externos, evidenciando sua habilidade em construir consensos práticos entre nações com realidades diversas.

 

O discurso de Xi na OCS

 

No discurso proferido durante a cúpula em Bishkek, Xi enfatizou a importância do fortalecimento da cooperação entre os países membros da OCS. Ele ressaltou a necessidade de promover o multilateralismo, coordenar esforços econômicos e estabelecer uma ordem internacional mais equilibrada.

Reiterando suas afirmações feitas anteriormente em julho durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Shanghai—onde defendeu uma colaboração internacional no desenvolvimento responsável da IA—Xi sugeriu criar um centro internacional dedicado às aplicações dessa tecnologia durante a OCS.

Ele também frisou a relevância de intensificar as colaborações nos campos do comércio e investimentos, além dos recursos energéticos. Durante seu discurso, convidou os países interessados para participar do programa “Grande Mercado para Todos: Exportar à China”, destinado a aumentar o acesso dos membros da OCX ao mercado chinês.

XIn ainda defendeu uma governança global que represente melhor todos os países; fortaleceu propostas relacionadas à conectividade econômica entre as nações envolvidas; ampliou discussões sobre segurança regional; e sublinhou o desenvolvimento como aspecto central nas relações internacionais—tudo ecoando as iniciativas previamente apresentadas pela China nos últimos anos.

Dessa forma, aproveitou sua presença na cúpula para delinear um caminho cooperativo voltado para um desenvolvimento multipolar baseado nas várias iniciativas chinesas que se interligam ao longo do tempo.

 

Visita ao Egito

 

Após sua passagem pelo Quirguistão, Xi Jinping dirigiu-se ao Egito para sua primeira visita oficial ao país em dez anos. Essa viagem foi realizada sob convite do presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi e coincidiu com as comemorações dos 70 anos das relações diplomáticas entre as duas nações.

Durante encontros com al-Sisi, foram debatidos diversos aspectos visando aprofundar a colaboração bilateral. Nos últimos anos, o Egito tem estreitado laços com a China através de investimentos significativos na infraestrutura local, indústria e energia, além de projetos ligados à ICR.

Tópicos como aumento do comércio bilateral, investimentos chineses em zonas industriais e infraestrutura local foram centrais nas discussões entre os líderes. Além disso, abordaram questões tecnológicas e coordenações relacionadas ao Oriente Médio e à situação palestina.

A localização geográfica estratégica do Egito—comandando o Canal de Suez—torna-o crucial no comércio global. A parceria com a China tem proporcionado benefícios significativos em termos econômicos ao país africano.

 

Exercícios militares conjuntos

 

Antevendo sua visita ao Egito, destacaram-se os exercícios militares conjuntos realizados entre as forças armadas chinesas e egípcias. Essas manobras contaram com aeronaves dos dois países envolvidas nas atividades apresentadas como parte do aprofundamento das colaborações defensivas.

A participação incluiu caças J-16 fabricados na China juntamente com aeronaves egípcias como os caças Rafale franceses. Este treinamento militar chamou atenção pela combinação tecnológica diversa demonstrando o aumento das interações militares entre Pequim e Cairo.

Um acontecimento notável foi o primeiro reabastecimento aéreo realizado por um caça Rafale egípcio utilizando um avião chinês YY-20. Ambas as aeronaves contam com sistemas compatíveis para reabastecimento em voo através de sonda cônica.

Diante das tensões globais atuais, a China busca garantir autonomia militar mediante controle total sobre suas produções bélicas sem depender do exterior. Em contrapartida, embora o Egito não possua força militar ou industrial significativa comparativamente à China, procura diversificar seus parceiros estratégicos para ampliar suas opções caso enfrente conflitos armados.

No fim das contas, todos esses eventos reforçam uma mensagem clara: tanto a China quanto seus aliados no Sul Global priorizam cooperação mútua e desenvolvimento conjunto frente à guerra. Contudo, reconhecem também a necessidade de estarem preparados diante das crescentes ameaças geopolíticas atuais.