Na quarta-feira (8), durante uma visita oficial para inspecionar as obras de reforma da Barragem Norte, em José Boiteux, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), foi flagrado agredindo verbalmente indígenas Xokleng que estavam protestando. O incidente ocorreu enquanto Mello falava com a imprensa e foi abordado por manifestantes que exigiam uma posição do governo sobre direitos territoriais e compensações históricas. Este episódio ilustra a crescente tensão entre a administração estadual e uma comunidade que há anos luta pelo reconhecimento de seu território, onde está situada a maior barragem do estado.
Ofensas do governador a indígenas durante manifestação
Durante sua entrevista, Mello declarou que estava “restaurando tudo que foi destruído pelos indígenas”. Logo em seguida, ele se virou para os manifestantes e disparou: “Vai para a put* que o pariu”. Essa agressão verbal foi gravada e rapidamente se espalhou pelas redes sociais e pela mídia.
As ofensas não cessaram. Quando uma mulher presente no protesto questionou o governador, ele respondeu: “a senhora não quer ir à merda?”. A mulher se apresentou como cacique e pediu respeito. A reação do governador foi desdenhosa: “e eu com isso?”. A sequência de declarações evidenciou que não se tratava de um mero deslize, mas sim de uma postura intencional diante de líderes indígenas exercendo seu direito de protestar em suas terras.
Contexto da Barragem Norte e as demandas dos indígenas
A Barragem Norte, localizada na região tradicional dos Xokleng em José Boiteux, é a maior do estado e foi construída para mitigar enchentes frequentes em Blumenau e áreas adjacentes. No entanto, sua construção em terras legalmente demarcadas como indígenas gerou décadas de conflitos sobre as compensações aos moradores das aldeias afetadas.
O protesto ocorreu durante a visita do governador para supervisionar as obras, que estão sendo esperadas há mais de 20 anos. Os indígenas apresentaram cartazes com reivindicações que o governo estadual desconsiderou como “temas de responsabilidade federal”, transferindo assim as obrigações sem abordar diretamente as demandas apresentadas. Para os Xokleng, a presença do governador era vista como uma oportunidade para diálogo que acabou sendo substituída por ofensas.
Correnteza das reações
Em resposta ao ocorrido nas redes sociais, Jorginho Mello alegou ter sido cercado e desrespeitado pelos indígenas, afirmando ainda que seu governo está empenhado em garantir moradia como compensação pelas obras na barragem.
A inversão dos papéis é significativa: o governador que insultou uma líder indígena no próprio território passou a se apresentar como a vítima da situação. O comunicado oficial do governo listou obras e investimentos sem mencionar os insultos proferidos, funcionando como um desvio de foco ao invés de abordar o comportamento do governador registrado nos vídeos.
A história da luta Xokleng e os conflitos passados
A construção da Barragem Norte teve início em 1972, durante o regime militar brasileiro, sendo finalizada nos anos 90. Em 2014, ela foi desativada. Após quase uma década fora de uso, o governo estadual decidiu retomar sua reativação, gerando resistência entre a comunidade local devido à incerteza sobre os resultados de uma obra tão antiga e há tanto tempo parada.
Os Xokleng pleiteiam a demarcação de um território abrangendo cerca de 37 mil hectares, enquanto atualmente vivem em uma área reduzida de apenas 14 mil hectares. A luta por essa terra remonta ao início do século XX, quando a colonização alemã e italiana levou os Xokleng a conflitos violentos. Documentos históricos relatam perseguições realizadas por “bugreiros”, indivíduos contratados pelo governo provincial para atacar comunidades indígenas. Essa disputa pela demarcação territorial motivou o Supremo Tribunal Federal a discutir a tese do marco temporal, que contesta o direito dos povos originários à demarcação das terras que não ocupavam desde 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição brasileira.
