quinta-feira, setembro 3

Fiocruz avança com vacina de RNA nacional contra a Covid; ensaios clínicos iniciam em 2027

A ciência pública no Brasil acaba de alcançar um novo patamar. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu sinal verde para o início dos testes clínicos de uma vacina contra a Covid-19, elaborada pela Fiocruz utilizando tecnologia nacional de RNA mensageiro (mRNA).

Este imunizante representa o primeiro resultado da plataforma desenvolvida por Bio-Manguinhos/Fiocruz, que também ficará encarregada da sua produção.

Além de introduzir uma nova vacina contra a Covid-19, este projeto confere ao Brasil controle sobre uma tecnologia que se tornou central na luta contra a pandemia, permitindo que o país desenvolva futuros imunizantes e tratamentos sem precisar reiniciar processos a cada nova crise de saúde. O recrutamento dos voluntários iniciais está previsto para o primeiro trimestre de 2027.

Testes envolverão 90 voluntários brasileiros

A fase inicial da pesquisa contará com 90 adultos saudáveis, com idades entre 18 e 59 anos, que serão recrutados em duas unidades de pesquisa no Rio de Janeiro.

Os participantes receberão a vacina como dose de reforço contra a Covid-19. Os pesquisadores focarão na avaliação da segurança e da resposta imunológica geradas pelo imunizante.

A expectativa é que a inclusão dos 90 voluntários dure cerca de seis meses. Após ingressarem no estudo, cada participante será monitorado por mais seis meses.

No entanto, a autorização da Anvisa não significa que a vacina já esteja disponível nas unidades de saúde. O imunizante ainda precisa passar por diversas fases do desenvolvimento clínico e atender às exigências regulatórias antes que possa ser registrado para uso pela população.

O Brasil avança em direção à autonomia tecnológica. A tecnologia baseada em RNA mensageiro ganhou destaque mundial com as vacinas criadas durante a pandemia por empresas como Pfizer/BioNTech e Moderna.

A diferença agora reside na origem dessa tecnologia: a plataforma da Fiocruz foi desenvolvida no Brasil.

A planta piloto de Bio-Manguinhos é a primeira na América Latina a receber certificação de Boas Práticas de Fabricação para essa tecnologia. Desde 2021, essa instituição também faz parte da estratégia da Organização Mundial da Saúde (OMS) para aumentar a capacidade de desenvolvimento e produção de vacinas com mRNA na América Latina.

Dominar essa plataforma significa diminuir a dependência brasileira em relação às tecnologias internacionais e aumentar a capacidade do país em responder rapidamente a futuras emergências sanitárias.

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Público investe no avanço tecnológico

A evolução também conta com investimento público significativo.

Através do Novo PAC Saúde, o Ministério da Saúde alocou R$ 77 milhões para a plataforma de RNA mensageiro da Fiocruz. Esse valor integra uma estratégia mais ampla totalizando R$ 210 milhões, destinada ao desenvolvimento dessa tecnologia no Brasil, envolvendo também o Instituto Butantan e o Centro de Competência em Vacinas da UFMG.

A meta não é apenas financiar um único imunizante, mas sim estabelecer uma infraestrutura científica e produtiva capaz de criar diversos produtos estratégicos para o SUS.

Ciencia pública como patrimônio do país

A pandemia trouxe uma lição valiosa para nações que dependem de tecnologias estrangeiras: em situações de emergência sanitária global, ter capacidade científica e produtiva é sinônimo de autonomia.

Durante a própria pandemia, o Brasil já havia avançado nesse sentido ao absorver tecnologia da AstraZeneca através da Fiocruz, que passou a produzir nacionalmente o ingrediente farmacêutico ativo das vacinas contra Covid-19.

No entanto, agora estamos diante de um novo cenário. Em vez apenas de incorporar tecnologias externas, pesquisadores brasileiros desenvolveram uma plataforma própria baseada em RNA mensageiro.

Pelo caminho ainda existem muitos desafios científicos antes que essa nova vacina possa ser disponibilizada pelo SUS. Os testes em humanos estão apenas começando e seus resultados definirão as etapas seguintes.

A autorização concedida pela Anvisa constitui um marco importante: evidencia as capacidades das instituições públicas brasileiras quando ciência, financiamento e política industrial trabalham em conjunto.

No contexto atual do país, onde ainda se depende fortemente do exterior para diversos insumos na área da saúde, dominar uma tecnologia estratégica representa não só uma conquista científica, mas também um aspecto fundamental para a soberania sanitária.