O BTG Pactual anunciou a aquisição do Banco Digimais, uma instituição financeira sob o controle do bispo Edir Macedo. Este negócio, revelado ao mercado na quarta-feira (8), marca um fortalecimento do modelo de resgate bancário que se torna cada vez mais comum no Brasil, onde a “parte boa” de bancos em dificuldades é transferida para grandes instituições do setor, com o suporte do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para minimizar os impactos e facilitar a operação.
A transação reitera a estratégia financeira implementada após a recente falência do Banco Master. Nela, ativos saudáveis e carteiras lucrativas são transferidos, enquanto o risco sistêmico e as dívidas problemáticas são amparados pelo suporte institucional do fundo, evitando assim uma crise financeira mais ampla.
O Banco Digimais já enfrentava sérias dificuldades e estava sob vigilância das autoridades financeiras. Em fevereiro, foi reportado que Edir Macedo teve que injetar R$ 250 milhões de seu próprio patrimônio para tentar estabilizar a instituição. Essa ação emergencial visava proteger o banco das exigências de capital impostas pelo sistema financeiro e mitigar os efeitos da crise gerada pelo Banco Master. No entanto, esse aporte milionário não foi suficiente para manter a operação por mais de dois meses.
A estrutura do apoio
A entrada do BTG no negócio representa mais do que uma simples oportunidade de mercado. Em janeiro, novas regras foram aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), permitindo que o FGC atuasse diretamente na transferência de controle de bancos em risco iminente de colapso, evitando assim intervenções federais traumáticas.
Dessa forma, o fundo deixou de ser apenas um pagador de seguros para clientes e passou a facilitar operações entre grandes players do mercado. Esse suporte pode incluir prazos ampliados para pagamento de dívidas ou a oferta de linhas de liquidez. Com isso, a compra torna-se significativamente mais acessível ao BTG e evita os impactos associados a liquidações judiciais tradicionais.
O foco da aquisição: o núcleo do financiamento
A estratégia por trás da aquisição está na seleção dos ativos absorvidos. O Banco Digimais, conhecido anteriormente como Banco Renner, possui uma parte importante e lucrativa no financiamento de veículos. Para o BTG, que está expandindo sua atuação no crédito ao varejo, herdando essa base ativa de clientes representa uma oportunidade extremamente vantajosa.
Assim, o banco dirigido por André Esteves solidifica sua posição ao incorporar o “filé” do Digimais, enquanto as falhas na administração que levaram Edir Macedo a essa situação crítica são diluídas no amplo acordo aprovado pelo mercado.
A supervisão regulatória
Considerando que o FGC opera sob a rigorosa supervisão do Banco Central do Brasil (BCB), esta transação requer aprovação estatal. O comunicado oficial aos investidores esclarece que o negócio está sujeito à validação da autoridade monetária e também ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), responsável pela análise das concentrações no mercado.
Além disso, as normas estabelecidas pelo CMN demandam uma abertura formal para propostas concorrentes. Esse processo tem como objetivo garantir transparência e competitividade na transferência dos ativos resgatados pelo sistema financeiro, embora o BTG já se apresente como o candidato mais natural à controle. Em um aspecto que reforça a falta de clareza comum em tais operações, o valor total da negociação permanece em sigilo absoluto entre as partes envolvidas.
