A distinção entre aprender sobre cinema e aprender a realizar um filme é crucial. É nesse espaço que a produtora executiva Elisa Tolomelli, conhecida por seu trabalho em filmes como Central do Brasil e Cidade de Deus, fundamenta sua obra Cinema na Prática – O Método Elisa Tolomelli de Produção Executiva, que reúne anos de vivência no setor para criar um guia prático voltado a estudantes, produtores e profissionais da área audiovisual. O lançamento do livro está agendado para o dia 21 de setembro.
A educação formal proporciona bases essenciais para entender a linguagem, a história e a criação cinematográfica. No entanto, transformar um roteiro em uma filmagem viável exige conhecimentos e estratégias específicas: planejar a produção, mensurar riscos, elaborar orçamentos, negociar, gerenciar equipes, lidar com situações inesperadas e tomar decisões que mantenham intacta a visão artística dentro das limitações práticas da produção.
No prefácio da obra, o Prof. Dr. Luiz A. D. Dantas, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes da USP, destaca a escassez de referências que integram teoria acadêmica com as complexidades reais de uma filmagem. Ele observa que faltava um material atualizado que proporcionasse uma visão “de dentro para fora”, levando o leitor às trincheiras da produção.
Livro “Cinema na Prática” de Elisa Tolomelli
Do conceito à realização
<spanElisa também tem essa percepção como docente. Em suas disciplinas sobre Formação de Produtores e Produtores Executivos, notou que as incertezas e ansiedades dos alunos costumam ser recorrentes. Uma das primeiras dúvidas que surgem é sobre as diferenças entre os papéis de Produtor e Produtor Executivo — uma confusão comum segundo ela.
O livro se propõe a esclarecer essa necessidade de entender como essas funções se estruturam e como são tomadas as decisões na prática. O produtor executivo é o responsável por formular estratégias logísticas para as filmagens, elaborar e gerenciar o orçamento, equilibrar necessidades artísticas com exigências operacionais, planejar o cronograma das filmagens e coordenar as equipes envolvidas na produção.
O método apresentado por Elisa se baseia em dois princípios fundamentais: planejamento e gestão. Para ela, o orçamento deve ser visto não como uma limitação à criatividade, mas sim como uma ferramenta que possibilita encontrar soluções que respeitem o valor artístico dentro dos recursos disponíveis.
Um exemplo marcante é encontrado em Central do Brasil. Na fase preparatória do filme, Elisa, junto com Walter Salles e a diretora de arte Carla Caffé, percorreu cerca de 10 mil quilômetros pelo Nordeste brasileiro em busca de locações adequadas enquanto desenvolviam o desenho artístico e logístico da produção. Essa viagem não foi apenas um procedimento burocrático; estava intimamente ligada ao processo criativo do filme.
Em outra situação desafiadora, um equipamento não previsto no orçamento ameaçou comprometer uma decisão artística do diretor. Em vez de descartar a ideia original, Elisa optou por reorganizar os custos envolvidos e encontrou uma solução que permitiu manter a cena planejada e ainda utilizar o equipamento em outra sequência – esta acabou se tornando uma das mais memoráveis do filme. Assim, produzir é essencialmente buscar caminhos viáveis.
A dimensão oculta do cinema
Um aspecto inovador do método é considerar como competência técnica aquilo que muitas vezes é visto apenas como habilidade pessoal: a gestão de pessoas.
A dinâmica de uma filmagem envolve profissionais sob intensa pressão, com longas jornadas de trabalho repletas de conflitos inesperados. Para Elisa, habilidades como inteligência emocional, liderança e compreensão dos diferentes perfis são fundamentais para garantir eficiência na produção — impactando diretamente no controle financeiro.
A experiência dela se reflete em obras como Cidade de Deus, cuja realização contou com mais de 250 jovens no elenco além de uma equipe técnica robusta e filmagens realizadas em quatro comunidades distintas.
Cinema na Prática aborda desde raciocínio produtivo até planejamento estratégico-logístico-financeiro incluindo desenho da produção, elaboração orçamentária, negociações eficazes, gestão das equipes até prestação de contas. O apêndice contém modelos práticos como mapas de transporte e planejamento alimentar que podem ser integrados à rotina profissional.
Dessa forma, o livro emerge da intersecção entre uma carreira consolidada na produção cinematográfica e uma trajetória dedicada à formação profissional.
Elisa Tolomelli tem um histórico significativo como produtora executiva em filmes renomados como Central do Brasil, Cidade de Deus e Lavoura Arcaica. Além disso, atuou em diversas áreas como produção, roteiro, direção e distribuição; foi diretora comercial da RioFilme onde supervisionou lançamentos comerciais superiores a 30 produções; fundou a EH! Filmes em 1996 onde produziu mais de 20 filmes e séries; desde 2011 se dedica também ao ensino no audiovisual por meio de cursos e masterclasses em várias instituições brasileiras; é autora ainda da autobiografia E lá fui eu!, que figurou entre os best-sellers da revista </emVeja.
