A Go Up Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, encontra-se em meio a uma crise relacionada à pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro e poderá enfrentar uma multa de até R$ 100 mil devido a supostas irregularidades junto à Agência Nacional do Cinema (Ancine).
Informações obtidas pela agência reguladora, conforme reportado pela coluna de Malu Gaspar no Globo, indicam que a empresa não comunicou oficialmente à Ancine sobre as filmagens realizadas no Brasil no ano anterior, tampouco apresentou a documentação necessária para produções estrangeiras feitas em território nacional.
A Ancine anunciou que iniciou um procedimento investigativo para determinar o papel da Go Up Entertainment na produção da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, cuja estreia está programada para setembro deste ano.
Produtora principal ou contratada?
Dentre os aspectos analisados, está a clarificação sobre o envolvimento da produtora brasileira no projeto: a Ancine busca entender se a Go Up atuou como produtora principal de “Dark Horse” ou se serviu apenas como empresa contratada por uma companhia estrangeira responsável pelo filme.
Conforme as normas estabelecidas pela Ancine, qualquer gravação internacional realizada no Brasil deve ser conduzida por uma empresa devidamente registrada na agência. À produtora cabe informar oficialmente sobre a realização da obra e apresentar documentos como contrato de produção, plano de filmagem e passaportes dos profissionais estrangeiros envolvidos.
Ainda segundo a agência, até o momento nenhum desses documentos foi apresentado, mesmo com as gravações em São Paulo recebendo ampla cobertura da mídia.
A Go Up também não respondeu aos ofícios encaminhados pela Superintendência de Fiscalização da Ancine nos meses de fevereiro e março deste ano, antes mesmo do surgimento de áudios e mensagens atribuídos a Flávio Bolsonaro que mencionavam cobranças de financiamento ao banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
No comunicado enviado à produtora, a Ancine solicitou que fosse “comprovada a comunicação à Ancine sobre a produção da obra estrangeira Dark Horse”, ressaltando que essa exigência está prevista em uma instrução normativa vigente desde 2008.
Possíveis penalidades
No ofício também é destacado que, caso as irregularidades persistam, a empresa poderá ser multada com valores entre R$ 2 mil e R$ 100 mil.
A jornalista Karina Gama entrou para o projeto através do deputado federal Mário Frias, responsável pelo roteiro de “Dark Horse”. Ela ainda preside o Instituto Conhecer Brasil, instituição que passou a ser alvo de investigações pelo Supremo Tribunal Federal (STF) após receber R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas à produção audiovisual.
Ainda que tenha registro na Ancine desde 2020, o instituto nunca lançou filmes no Brasil ou no exterior, conforme informações apuradas pela reportagem.
O escândalo do financiamento
A controvérsia acerca do financiamento do filme se intensificou após reportagens do Intercept Brasil revelarem que Flávio Bolsonaro confirmou ter obtido R$ 61 milhões junto a Daniel Vorcaro. Esses recursos teriam sido transferidos por meio de uma empresa ligada ao banqueiro para um fundo gerido pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Nenhum dos envolvidos conseguiu explicar por qual motivo foi necessária essa intermediação financeira pelo fundo, levantando suspeitas sobre o uso de parte desse dinheiro para custear a estadia de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Sobre o trailer
No último dia 19, foi divulgado o trailer de “Dark Horse”, que revela que as filmagens ocorreram no Brasil, conta com diálogos em inglês e possui um elenco predominantemente estrangeiro. O ator americano Jim Caviezel, famoso por seu papel como Jesus Cristo em The Passion of the Christ, interpreta Jair Bolsonaro na película.
Uma avaliação inicial por autoridades brasileiras sugere que a presença da logomarca da Go Up no início do trailer fortalece a hipótese de que a empresa atuou como produtora local para uma obra estrangeira, enquadrando assim o projeto nas diretrizes de fiscalização da Ancine.
A agência afirmou que tornará públicos os resultados da investigação após sua conclusão e enfatizou que tomará as medidas legais cabíveis caso sejam confirmadas as irregularidades encontradas.
