sexta-feira, setembro 4

Vorcaro omite Flávio Bolsonaro em depoimento e direciona críticas apenas à PF

A audiência sigilosa com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, foi conduzida pelo juiz auxiliar do gabinete do ministro André Mendonça, no contexto da Petição 16.653 do Supremo Tribunal Federal. O depoimento, que ocorreu em um ambiente reservado e sem a presença de representantes da Polícia Federal, delineou uma estratégia política clara. Durante sua fala, Vorcaro atacou diretamente a corporação policial e membros do núcleo do poder central, mas se absteve de mencionar figuras da direita e extrema direita associadas ao escândalo Master.

Um dos pontos mais notáveis da oitiva foi a total omissão de nomes relevantes. Apesar de ter buscado relatar pressões e se “libertar moralmente”, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é candidato à Presidência e recebeu depósitos de R$ 72 milhões, não foi citado em momento algum. Outros personagens como o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e outros integrantes da direita ou extrema direita também não foram mencionados pelo banqueiro.

Em contrapartida, as declarações de Vorcaro focaram na crítica às instâncias de investigação e ao sistema judiciário. O diretor-geral da Polícia Federal, delegado Andrei Rodrigues, foi um dos principais alvos das acusações. Vorcaro insinuou que a PF estaria agindo por medo e para criar uma “cortina de fumaça”. Ele argumentou que sua primeira prisão e a resistência da polícia em ouvir suas declarações estavam ligadas ao temor da revelação de “linhas de moralidade e ilicitudes” presentes em eventos sociais nos quais membros da corporação estariam envolvidos.

A estratégia de descreditar instituições não se restringiu à Polícia Federal. Ao longo de seu relato, Vorcaro também fez alucionações sobre o Supremo Tribunal Federal. Ele sugeriu que decisões judiciais rigorosas eram parte de uma orquestração política. O ex-banqueiro afirmou ter ouvido de um concorrente que havia um consenso para que ele fosse “queimado vivo em praça pública”, visando desencorajar novos entrantes no mercado financeiro nos próximos anos. Ao discutir suas interações com o Ministério Público Federal e a Procuradoria-Geral da República, liderada por Paulo Gonet, ele tentou destacar uma discrepância na forma como era tratado pela PGR em comparação à PF, insinuando que as investigações estavam sendo conduzidas com interesses políticos em mente.

Para sustentar sua narrativa de perseguição e desacreditar as ações da Polícia Federal, Vorcaro apresentou relatos dramáticos sobre seu tempo sob custódia. Ele alegou ter sofrido intimidação psicológica e física durante os transportes realizados pela escolta policial, descrevendo momentos em que ficou preso por horas em um “caixote” sem ventilação. Durante os deslocamentos aéreos e terrestres com óculos escuros vedando sua visão, ele relatou ouvir provocações como: “Isso que dá, vai querer falar disso do chefe? Vai acontecer isso, “Quer mexer com os patrões? Sua vida vai virar um inferno, entre outras ameaças.

Vorcaro também negou veementemente a imagem violenta que lhe foi atribuída nas investigações policiais devido a mensagens interceptadas. Ele argumentou que a Polícia Federal retirou trechos fora de contexto para construir uma narrativa de “chefe de máfia”, afirmando que expressões ditas em momentos de raiva eram seguidas por pedidos para “esquece isso, estava nervoso. Segundo ele, essa construção serviu como justificativa para mantê-lo incomunicável em regime rigoroso dentro do presídio federal, afastando-o do contato com advogados e familiares.

A análise contida na Petição 16.653 sugere uma intenção política clara nas declarações feitas por Vorcaro. Ao isentar figuras centrais da extrema direita enquanto direciona ataques contra o diretor-geral da PF e levanta suspeitas sobre as decisões do STF e PGR, o ex-banqueiro parece buscar reformular as dinâmicas envolvidas no processo investigativo. Essa manobra tem como objetivo enfraquecer aqueles responsáveis pela coleta das provas relacionadas às suas acusações, ao mesmo tempo em que protege seus aliados mais influentes na oposição, moldando seu depoimento para atender objetivos claramente políticos.