Durante uma coletiva para veículos da mídia progressista em Brasília nesta quinta-feira (16), o deputado Pedro Uczai (SC), líder do PT na Câmara, criticou abertamente o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. O parlamentar expressou suas preocupações tanto em relação à política monetária quanto à interação da autoridade monetária com o setor financeiro.
Uczai destacou que a autonomia total do Banco Central possibilita uma atuação desconectada das diretrizes do governo eleito, resultando em uma taxa Selic que se mantém entre as mais elevadas globalmente.
“A legislação vigente permite que o presidente da República escolha o presidente do Banco Central. Após essa nomeação, não há nenhuma relação de subordinação”, observou.
Taxa de juros “sem justificativa”
O deputado argumentou que a situação econômica atual já permitiria uma redução mais significativa na taxa básica de juros. Ele mencionou a desaceleração na atividade industrial e a contenção da inflação como elementos que, segundo ele, não justificam a manutenção da Selic em patamares elevados.
“Desde dezembro, temos observado um declínio na atividade industrial. Desde outubro e novembro, a inflação está sob controle — nunca houve um histórico tão controlado. Portanto, não enfrentamos problemas inflacionários”, afirmou.
Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada em março, a taxa Selic foi reduzida de 15% para 14,75% ao ano, dando início a um ciclo de cortes. Contudo, essa taxa ainda é alta e mantém o Brasil entre os países com os juros reais mais elevados do mundo.
Para Uczai, os fundamentos econômicos não sustentam essa postura. “Então por que a taxa de juros não cai? E por que não fixá-la em 14,25%? Além disso, o câmbio? O dólar está próximo de R$ 5. Não há problemas cambiais ou internacionais relevantes para a política monetária brasileira”, declarou.
“Café na Faria Lima”
O deputado afirmou que Galípolo, que foi designado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para liderar o Banco Central, tende a priorizar conversas com o sistema financeiro em detrimento das interações com o governo federal.
“Atualmente, Galípolo não se encontra com o ministro da Fazenda, mas vai tomar café na Faria Lima. Ele não se reúne com a equipe econômica e sim com representantes do mercado”, destacou.
Na visão de Uczai, isso é um reflexo direto do modelo de autonomia do Banco Central.
“O ambiente de Galípolo é voltado para o setor financeiro e não para questões políticas. Ele interage diariamente com esse setor”, comentou.
PEC 65 e debate sobre autonomia do BC
As críticas do líder petista também abordaram a PEC 65/2023, proposta que visa expandir a autonomia do Banco Central ao transformá-lo de autarquia federal em uma empresa pública sob direito privado, conferindo maior independência administrativa e orçamentária.
Essa proposta aprofunda as mudanças implementadas pela lei de autonomia de 2021, que estabeleceu mandatos fixos para os diretores da instituição e diminuiu a influência direta do Executivo sobre suas operações.
Uczai considera essa movimentação um passo na direção equivocada. Ele declarou que a bancada do PT se oporá à proposta e continuará questionando a política monetária atual do Banco Central.
Simultaneamente, o partido está debatendo iniciativas para revisar esse modelo, defendendo uma maior coordenação entre a política monetária e as políticas econômicas governamentais, além de mecanismos institucionais mais robustos para controle.
“É imprescindível repensar o conceito de autonomia. Essa autonomia absoluta é incompatível com um Brasil tão desigual”, concluiu.
